CRÍTICA | RESIDENT EVIL (2026)

As adaptações de videogames sempre foram as mais difíceis de agradar, tanto os fãs quanto a crítica especializada, e a franquia Resident Evil é o melhor exemplo. Os filmes de Paul W. S. Anderson sempre foram polêmicos pelo fato de o diretor não seguir fielmente a história dos jogos, e principalmente por inserir uma personagem que não existia nos games como protagonista – a icônica Alice, interpretada pela talentosa Milla Jovovich -. Independente da desaprovação da maioria dos fãs, a franquia rendeu seis filmes, arrecadando um total de U$ 1,2 bilhão em bilheteria mundial, embora todos tenham amargado com menos de 50% de aprovação dos críticos.
Em 2021, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City tentou reviver a franquia com uma adaptação bem mais fiel aos jogos – particularmente, achei melhor do que os filmes com a Milla Jovovich -, apesar dos efeitos especiais bastante duvidosos e da confusão narrativa ao adaptar os dois primeiros jogos em um filme de pouco mais que 1h30 de filme. Teve também uma série horrorosa da Netflix em 2022 que nem vale mencionar, e então finalmente chegamos no filme em questão, Resident Evil (2026) sob visão de Zach Cregger.
Quando saiu o primeiro trailer do novo filme, a polêmica recomeçou porque, mais uma vez, a trama não ia ter nenhuma ligação com o enredo dos videogames, deixando os fãs – inclusive o próprio autor dessa critica – receosos com essa nova adaptação. Porém, o diretor é Zach Cregger, de Noites Brutais (2022) e A Hora do Mal (2024), considerado dois dos melhores longas do terror contemporâneo, então, era de se esperar que viesse algo bom. E realmente veio: Resident Evil (2026) pode não ter nenhuma ligação com os jogos, mas como filme de terror é um dos melhores do ano, com um ritmo frenético, ágil, muita violência, bastante gore, e ainda tem diversas referências a franquia de games. Na história, acompanhamos o entregador de suprimentos médicos Bryan (Austin Abrams), que precisa levar uma bolsa de medicamentos até um laboratório em Raccoon City. O que parecia ser apenas mais um turno cansativo, se torna um pesadelo quando um vírus transforma a população da cidade em zumbis e criaturas monstruosas, e agora, Bryan precisa sobreviver ao caos até chegar o laboratório.

O novo Resident Evil acerta em não tentar ser uma adaptação literal aos jogos, uma escolha ousada que, embora possa frustrar os fãs mais puristas, entrega um resultado extremamente positivo. Em vez de reciclar rostos conhecidos, ou seguir a trama dos videogames, Zach Cregger nos joga em uma Raccoon City diferente e coberta de neve para transmitir a real experiência de se jogar um survival horror. As referências surgem de forma natural, seja nos puzzles de cenário, na busca por chaves específicas, no gerenciamento do espaço na mochila ou nos icônicos sprays de cura. A própria direção de fotografia abraça essa linguagem, alternando entre a claustrofobia dos ângulos fixos e a imersão de uma câmera em terceira pessoa colada ao ombro do protagonista, com direito a sequências inteiras — como a sufocante perseguição no beco — que parecem saídas diretamente dos jogos, resultando em um ritmo frenético de ação, suspense e horror que prende o espectador do primeiro ao último minuto. Para sustentar essa atmosfera de perigo real, o filme faz por merecer sua classificação indicativa máxima de 18 anos: a violência extrema, o gore visceral, o sangue abundante e as mutilações chocantes deixam claro que qualquer erro de Bryan pode ser o seu último, é um prato cheio para os amantes do horror gráfico.
Outro destaque é o design das criaturas, que serve como uma homenagem aos diferentes jogos da franquia da Capcom. Deixando de lado monstros os mais conhecidos, como o Licker ou o Nemesis, Cregger busca inspiração nos jogos mais recentes. O cão mutante do celeiro, por exemplo, abandona o visual clássico dos Cerberus para adotar a dinâmica dos “Colmillos” de Resident Evil 4, com sua cabeça se partindo em tentáculos. Mais adiante, a criatura que vomita ácido é uma referência aos repulsivos “Fat Molded” de RE 7, enquanto o assustador bebê gigante de RE Village ganha uma versão derivada igualmente perturbadora. O ápice do design de produção, contudo, fica para a massa colossal de corpos fundidos que persegue o protagonista. Ao mesmo tempo em que a criatura tenha detalhes biológicos que remetem às mutações de William Birkin em "Resident Evil 2", sua concepção final é uma referência cirúrgica a Nyx, um dos chefes mais massivos e esquecidos do clássico "Resident Evil Outbreak: File 2" É o tipo de monstro que evoca o melhor do horror corporal dos anos 80, e que lembra bastante as transformações das criaturas do filme Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter.

Parte do sucesso do filme se deve a atuação divertida e carismática de Austin Abrams como o entregador de suprimentos Bryan. E a grande sacada do longa é que, ao invés de o personagem ser o típico herói destemido do survival horror, Bryan reage exatamente como qualquer pessoa normal poderia reagir, soltando diversos palavrões a cada susto e xingando absurdos nas situações insanas em que ele se enfia. Vestindo apenas o seu uniforme de trabalho em meio ao caos de Raccoon City, o ator usa a vulnerabilidade do personagem para aumentar o senso de perigo. A inexperiência de Bryan, o carisma dramático e o seu desespero, combinados com o timing cômico impecável de Abrahms e a condução precisa de Zach Cregger, gera uma identificação imediata com o personagem, tornando essa missão de sobrevivência muito mais divertida e assustadora.
Embora alguns efeitos especiais soem um pouco artificiais - como na bizarra sequência do berçário -, o novo Resident Evil se consolida como a melhor adaptação até aqui, mesmo sem ter relação direta com o enredo dos jogos. O grande acerto de Zach Cregger foi abrir mão da linha narrativa original para criar algo totalmente novo, apostando em um protagonista comum com quem podemos nos identificar. Ao fazer isso, o diretor conseguiu transportar para as telonas a verdadeira experiência de se jogar um survival horror, mantendo intactas a atmosfera de tensão e as mecânicas clássicas dos games. Toda essa jornada ganha força com o carisma magnético de Austin Abrams, que, ao soltar palavrões a cada susto e se meter em situações absurdas, torna a sessão ainda mais dinâmica, divertida e envolvente. Vale destacar que parte do público vem reclamando do excesso de piadas e humor; particularmente, isso não me incomodou em nada, mas é um elemento que vai do gosto de cada um. No fim das contas, para quem busca um filme com ritmo frenético, intenso e repleto de violência visceral, sangue e criaturas monstruosas assustadoras, a versão de Cregger é um prato cheio, e sem dúvidas, é um dos melhores filmes de terror do ano - pegando um Top 3 fácil -. Pode não ser exatamente o Resident Evil que nós, fãs, esperávamos assistir, mas acabou sendo uma grata e brutal surpresa.

RESDIDENT EVIL
Ano: 2026
Direção: Zach Cregger
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 93 min
Elenco: Austin Abrams, Zach Cherry, Andrea Miltner.
★★★★ ½ 9,5










Comentários