CRÍTICA | TODO MUNDO EM PÂNICO
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 5 de abr.
- 5 min de leitura

Muito se fala que estamos na “era do cancelamento”, que falas e atitudes que lá nos anos 2000, anos 90, para trás, eram mais “aceitáveis” e comuns, hoje em dia soariam problemáticas e erradas – e sim, muitas delas realmente são -. No âmbito cinematográfico, diversos filmes seriam mal interpretados nos dias de hoje, e “Todo Mundo em Pânico”, de 2000, certamente iria fracassar nas críticas e nas bilheterias. Não que o filme de 2000 foi ovacionado pela crítica especializada (recebeu mais críticas negativas do que positivas), mas a produção foi um enorme sucesso de bilheteria, arrecadando U$ 278 milhões, um número bastante expressivo para a época, ainda mais levando em consideração o gênero e o orçamento de apenas U$ 19 milhões.
O subgênero da comédia, as paródias, não era nenhuma novidade no cinema – o auge foi nos anos 80, com “Corra que a Polícia Vem Aí”, “Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu”, e “SpaceBalls” –, mas Todo Mundo em Pânico abriu portas para diversos filmes que parodiavam outras produções (mas nenhuma chegou perto do sucesso de “Scary Movie”, a não ser as próprias sequências). Diferente das produções dos anos 80, o filme dos irmãos Marlon Wayans, Shawn Wayans, e Keenen Ivory Wayans, satirizavam, principalmente, os filmes de terror, entre eles, “Pânico” e “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado” – que faziam parte da trama principal -, além de Pânico 2, A Bruxa de Blair, Halloween, O Exorcista, O Sexto Sentido, entre outros; até Matrix não passou despercebido. Na trama, Cindy (Anna Faris), e seus amigos Bobby (Jon Abrahams), Brenda (Regina Hall), Buffy (Shannon Elizabeth), Greg (Lochlyn Munro), e Ray (Shawn Wayans) atropelam um homem na estrada, e jogam o corpo no mar. Um ano depois, uma colega da escola deles, Drew Becker (Carmem Electra) é assassinada, ao mesmo tempo que recebem uma carta anônima dizendo que sabem o que eles fizeram no verão passado.

Todo Mundo em Pânico é uma comédia sem filtro que ofende todo mundo e não tem medo de ser cancelado – ou tinha, talvez -. Sua abordagem é bem mais direta do que os outros filmes do gênero, muitas situações e partes da história não fazem sentindo algum, a trama pouco importa – ela está lá sim, mas não é nada complexo -, “Scary Movie” é um filme exagerado, politicamente incorreto, repletos de piadas e referências a cultura pop (além dos filmes, claro), e é impossível não dar risadas e se divertir com os absurdos que vamos presenciar. Não é um filme para espectadores exigentes, e sim para aqueles que apenas querem se divertir durante a sessão, tudo é muito rápido e prático, e nada é coerente. E grande parte desse sucesso é por causa dos personagens carismáticos, bobos, e engraçados, principalmente Cindy e Brenda. Anna Faris e Regina Hall dão vida, respectivamente, as protagonistas do filme, e de toda a franquia. Cindy é extremamente ingênua, caricata, tola, que é uma crítica exagerada de como as protagonistas dos filmes de terror parecem ser. Já Brenda é extremamente o oposto, fala na cara, não leva desaforo para casa, transformando cenas simples em momentos memoráveis. E o melhor de tudo é a química entre Anna Faris e Regina Hall, ambas tem um timing cômico certeiro, além de esbanjarem carisma e serem as melhores personagens da franquia. E não é atoa que elas estão em quatro dos cinco filmes da franquia – elas só não voltaram para Todo Mundo em Pânico 5, que funciona como um reboot -. E o mais legal é que a personagem de Hall, Brenda, morre em todos os filmes, mas sempre volta.

O elenco coadjuvante também está ótimo e cada um trem sua importância na trama, e a maioria parodia os personagens de Pânico e “Eu sei...”, mas vale destacar as personagens de Carmen Electra e Shannon Elizabeth, que interpretam Drew Decker e Buffy Gilmore, respectivamente. Ambas satirizam, ou fazem uma crítica, às personagens femininas e os clichês do gênero, principalmente sobre a personalidade mais “boba” delas, assim como as mulheres precisam ter o corpo bonito para chamar a atenção e e serem as protagonistas. E uma curiosidade: os nomes de alguns personagens são referências aos personagens e atores dos filmes de terror. Cindy Campbell (Anna Faris) é referente ao sobrenome da atriz Neve Campbell, da franquia Pânico; Bobby Prinze também é referente ao sobrenome do ator Freddie Prinze Jr., o Ray de “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”, assim como Greg Phillipe se refere ao sobrenome de Ryan Phillipe, o Barry, do mesmo filme. O personagem de Shawn Wayans se chama Ray, o mesmo nome do personagem de Freddie Prinze Jr., em “Eu Sei...”, e o do seu irmão, Marlon Wayans, se chama Short Meeks, referente ao Randy Meeks da franquia Pânico, interpretado por Jamie Kennedy. Ainda tem Cheri Oteri que interpreta a repórter Gail Hailstorm, referência a personagem Gale Weathers, de Courtney Cox, na franquia Pânico (falta só uma letra no nome), e Drew Decker, interpretada por Carmen Electra, se refere a atriz Drew Barrymore, que interpreta a primeira personagem que morre em Pânico (1996). E por fim, Buffy Gilmore (Shannon Elizabeth), que se refere a protagonista da série Buffy – A Caça Vampiros, interpretada por Sarah Michelle Gellar, que inclusive está em “Eu Sei...” e é parodiada pela atriz de “Scary Movie”.

Todo Mundo em Pânico inovou o gênero da comédia com o seu tom pastelão e humor escrachado, mas será que as piadas homofóbicas, machistas, sexistas, e capacitistas, funcionariam nos dias de hoje? Será que o filme seria cancelado e fadaria ao fracasso? Provavelmente sim, já que muitas piadas envelheceram mal e os tempos mudaram. Acho que a gente deveria assistir com um olhar mais crítico, e quando vê, esse humor pode ser até uma crítica de como a sociedade atual aborda esses assuntos. O fato é que Todo Mundo em Pânico teve um importante impacto cultural na época do lançamento, da mesma forma que os filmes adolescentes de John Hughes – Gatinhas e Gatões e Mulher Nota 1000, por exemplo – também tiveram situações e falas problemáticas, mas que são considerados clássicos dos filmes adolescentes dos anos 80. Se o espectador relevar as piadas problemáticas, vai se divertir bastante com essa comédia escrachada dos irmãos Wayans, um humor ácido, direto, e sem filtros, com diversas referências a cultura pop, personagens carismáticos, bobos e divertidos. Impossível não rir dos absurdos nonsense desse filme.

TODO MUNDO EM PÂNICO
Ano: 2000
Direção: Keenen Ivory Wayans
Distribuidora: Miramax/ Dimension Films
Duração: 87 min
Elenco: Anna Faris, Regina Hall, John Abrahams, Shannon Elizabeth),
Lochlyn Munro, Shawn Wayans, Carmen Electra, e Maron Wayns.
NOTA: 8,5
Disponível no Prime + Paramount Plus














Comentários