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CRÍTICA | OS ESPÍRITOS

  • Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
    Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
  • há 6 dias
  • 4 min de leitura


Você provavelmente deve conhecer o cineasta neozelandês Peter Jackson pela trilogia "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit"; ele também lançou a sua versão de "King Kong" em 2005 e adaptou para os cinemas a obra literária "Um Olhar do Paraíso" (The Lovely Bones). Mas antes de se aventurar pelo universo da fantasia medieval, o diretor fez sua estreia oficial em Hollywood com "Os Espíritos", estrelado por Michael J. Fox. Misturando terror sobrenatural com comédia e humor ácido, "The Frighteners" (no original) é uma produção muito subestimada dos anos 90; um filme que diverte e ao mesmo tempo assusta, entregando uma narrativa caótica e original. Na trama, após um trágico acidente de carro, Frank Bannister (Fox) adquire a habilidade de ver e se comunicar com espíritos, aproveitando a situação para se beneficiar financeiramente. Mas quando uma ameaça maligna surge na cidade ceifando a vida dos moradores, Frank precisa usar suas habilidades reais para encontrar e derrotar esse ser demoníaco, que se apresenta como a própria Morte. Trini Alvarado, Jake Busey, Dee Wallace, Jeffrey Combs e Peter Dobson também estão no elenco.


O grande trunfo, e também o maior desafio de "Os Espíritos", reside na mistura de gêneros que o roteiro, escrito pelo próprio Peter Jackson com participação de Fran Walsh, faz: o filme tem elementos de terror, comédia, humor ácido, diálogos bem-humorados, um estilo gótico e sobrenatural, e até uma trama investigativa sobre um assassino em série. E essa alternância de gêneros funciona porque o mistério da trama é implantado de forma inteligente desde a primeira cena, instigando a curiosidade do espectador e tornando a sessão divertida de acompanhar. O único problema nessa mistura de gêneros está no desenvolvimento do segundo ato até o desfecho: essa alternância de tons entre uma galhofa caricata, com um humor ácido, e um terror investigativo envolvendo uma entidade macabra, pode soar um pouco destoante — uma abordagem estranha e talvez confusa -. Além disso, a narrativa sofre com um excesso de subtramas e um ritmo caótico no final, mistura essa que também pode soar desconexa e exagerada para o público; nada que estrague o filme como um todo.



A parte técnica também é outro destaque de "Os Espíritos", em especial os efeitos especiais, ainda que pareçam um pouco datados em comparação com os de hoje, mas que se consolidaram como um marco visual para a época do lançamento. Desenvolvidos pela Weta Digital, Peter Jackson conseguiu com perfeição fazer os espíritos interagirem com os cenários e os personagens humanos, assim como o design dos espectros, em especial o “Ceifador”, com direito à roupagem clássica da morte e até a típica foice que a entidade usa. Essa ameaça assustadora dita o ritmo das sequências de ação e perseguição que, filmadas em ambientes claustrofóbicos como os corredores de um hospital abandonado, ou até em lugares públicos, ganham contornos genuinamente assustadores e tensos, criando sequências empolgantes. E essa inventividade técnica influencia positivamente para que Jackson insira a sua assinatura gótica autoral, transformando o seu filme em uma obra cult, e não em algo mais genérico.


O sucesso da narrativa também se apoia no carisma do elenco que abraça a proposta excêntrica do filme. Michael J. Fox está ótimo no papel do melancólico Frank Bannister, um vigarista que também está de luto pela morte de sua esposa anos atrás. O peso dramático de sua jornada encontra um recomeço na ótima química com a personagem de Trini Alvarado, que interpreta a sensata e carismática Dra. Lucy, funcionando como um contraponto perfeito para as interações de Frank com o trio de fantasmas comparsas — vividos com muita canastrice e carisma por Chi McBride, Jim Fyfe e John Astin —, que funcionam como um excelente alívio cômico. Em contrapartida, os antagonistas também se destacam bastante: figuras caricatas, bizarras e assustadoras que potencializam ainda mais o tom de terror da narrativa. É impossível ficar indiferente com o personagem de Jeffrey Combs, o agente federal Milton Dammers; com seus trejeitos caricatos e peculiares, penteado bizarro e uma paranoia palpável, Combs cria uma figura grotesca e estranha que se torna um dos pontos mais memoráveis do filme. Esse clima de insanidade e de horror é aumentado com a dupla de vilões interpretada por Jake Busey e Dee Wallace, que abraçam o sadismo e entregam performances perturbadoras.



No fim, "Os Espíritos" é um filme que diverte e assusta ao mesmo tempo, entregando uma narrativa enérgica e cheia de surpresas. Apesar do ritmo por vezes irregular e dessa mistura arriscada de gêneros, a obra de Peter Jackson se sobressai através de efeitos visuais impressionantes para o seu tempo, uma direção autoral primorosa e um elenco incrível e extremamente carismático que chama bastante a atenção. Tudo isso culmina em um terceiro ato assumidamente exagerado e caótico: o clímax no hospital abandonado abraça o terror de uma forma memorável, resultando em uma correria frenética com muito caos e possessão, ainda que seja um pouco corrido. "Os Espíritos" merece ser revisitado e visto como um dos grandes clássicos cult e subestimados dos anos 90. A diversão é garantida.







OS ESPÍRITOS


Ano: 1996

Direção: Peter Jackson

Distribuidora: Universal Pictures

Duração: 110 min

Elenco: Michael J. Fox, Trini Alvarado, Jake Busey, Dee Wallace,

Jeffrey Combs e Peter Dobson



★★★★ 8,0


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