CRÍTICA | MARTE ATACA!
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 18 de ago.
- 4 min de leitura

Fazendo a famosa “dobradinha” – filmes com a mesma temática lançados no mesmo ano – com Independence Day, “Marte Ataca!” é um filme extremamente tosco, ruim, e foi um fracasso de público na época, mas que ao longo dos anos foi ganhando o status de um clássico cult indispensável da ficção dos anos 90. Dirigido pelo excêntrico Tim Burton, “Marte Ataca!” abraçou a estética do “cinema trash” e a violência cartunesca, mas o que torna a produção brilhante é a sua forma inusitada de contar uma história sobre invasão alienígena: ao mesmo tempo que diverte pelo deboche e pelo humor ácido, ele entrega uma crítica social à arrogância militar, à política e ao sensacionalismo da mídia, além de fazer diversas referências e homenagens aos filmes de monstros dos anos 50. Com um elenco estelar – Jack Nicholson, Glenn Close, Pierce Brosnan, Michael J. Fox, Sarah Jessica Parker, Jack Black, Natalie Portman, Danny DeVito, Annette Bening, Martin Short e Lukas Haas –, a premissa é simples: o governo americano detecta espaçonaves marcianas chegando à Terra e o que parecia ser uma visita amigável se transforma em um ataque com muita destruição e raios lasers dizimando a humanidade.
O grande trunfo de "Marte Ataca!" é a irreverência de sua abordagem ao abraçar os elementos trash sem nenhum pudor, transformando a invasão alienigena em algo extremamente ridículo, mas divertido e inusitado. Os pontos mais fortes do filme são a parte técnica e a concepção dos marcianos. Visualmente, o longa é um deleite de excentricidade que equilibra o cafona e o nostálgico, seja pelos efeitos especiais propositalmente artificiais, pela mistura de uma estética vintage com a realidade dos anos 90, ou pelo design caricato dos alienígenas, cabeçudos e com olhos grandes; e tudo isso funciona porque Burton não buscou o realismo, e sim o absurdo. Além disso, esse estilo "tosco" serve para fazer homenagens e paródias cirúrgicas ao cinema de ficção científica dos anos 50. Por outro lado, a narrativa é o ponto mais frágil, abrindo mão de qualquer profundidade dramática através de uma trama caótica com múltiplos núcleos que vão desde o alto escalão da Casa Branca até jornalistas e cidadãos comuns em Las Vegas. O elenco de estrelas chama a atenção, mas muitos atores são intencionalmente desperdiçados, tornando-se meros coadjuvantes que acabam pulverizados de forma abrupta pelas armas marcianas.

Por trás desse festival de absurdos, "Marte Ataca!" esconde uma sátira social ácida sobre as autoridades americanas. Sob o pretexto de uma comédia boba, Tim Burton e o roteirista Jonathan Gems retratam os líderes políticos como pessoas patéticas, egoístas e incompetentes diante de uma crise real. Seja através da arrogância dos militares em resolver tudo pela força bruta, do sensacionalismo dos meios de comunicação que tratam a invasão como um espetáculo de entretenimento ou até da ironia à diplomacia quando os marcianos dizem que “vieram em paz” enquanto desintegram civis, esse humor irreverente funciona perfeitamente. Burton usa o deboche do cinema moderno com as fórmulas, o medo institucional da Guerra Fria, e referências à ficção cientifica dos anos 50.
É nesse ponto que o filme acerta em cheio: a homenagem satírica aos clássicos dos anos 50. O diretor resgata o charme dos filmes B ao utilizar discos voadores prateados similares aos de A Invasão dos Discos Voadores (1956), os marcianos inspirados em Terra em Êxtase (1955) e uma animação digital que emula propositalmente os movimentos em stop-motion de Ray Harryhausen. Além disso, o roteiro usa os arquétipos típicos daquela década, como o cientista ingenuamente otimista e o general obcecado por um ataque atômico, tornando-os figuras ridículas diante a invasão. E o mais curioso é a resolução do conflito: em vez de a ameaça ser derrotada por armas tecnológicas ou soluções biológicas de última hora, Burton vai na contramão e faz a cabeça dos marcianos explodir ao som da música "Indian Love Call", de Slim Whitman lançado em 1951, potencializando o espírito trash da produção.

Um dos aspectos que mais chama a atenção em “Marte Ataca!” é o incrível elenco com atores renomados de Hollywood, como Jack Nicholson, Glenn Close, Pierce Brosnan, Sarah Jessica Parker, Michael J. Fox e Natalie Portman. O ponto alto das participações está no tom adotado pelos atores, que entregam performances totalmente caricatas, teatrais e exageradas que combinam perfeitamente com as críticas sociais e o humor ácido do longa. O ponto fraco, contudo, é o desapego com esse grande elenco. Ao mesmo tempo que é divertido ver astros com suas atuações teatrais sendo desintegrados pelos marcianos, ou tendo suas cabeças trocadas com corpos de cachorros — o que eleva o tom mais trash e divertido do longa —, além de ver Jack Nicholson se desdobrar em dois personagens distintos e hilários, o roteiro sabota qualquer conexão emocional com o público. Os atores funcionam mais como participações especiais de luxo com tempo de tela reduzido.
No fim, Marte Ataca! é um filme ruim (no bom sentido), que se orgulha de ser uma produção assumidamente ridícula, mas que funciona perfeitamente dentro de sua proposta, é divertido e tem um charme único. E embora carregue problemas — como um roteiro raso, piadas repetitivas e subtramas descartáveis -, o filme de Tim Burton compensa ao entregar um entretenimento genuinamente divertido e inusitado, cheio de humor ácido e críticas sociais sobre a estupidez dos líderes políticos e a arrogância dos militares, que funcionam perfeitamente. Gostando ou não, “Marte Ataca!” é um clássico cult da ficção científica, uma pérola dos anos 90, com seu visual retrô e as homenagens aos filmes do gênero dos anos 50, cuja maior virtude é a coragem de assumidamente ridículo.

MARTE ATACA!
Ano: 1996
Direção: Tim Burton
Distribuidora: Warner Bros. Pictures
Duração: 108 min
Elenco: Jack Nicholson, Glenn Close, Pierce Brosnan, Michael J. Fox,
Sarah Jessica Parker, Jack Black, Natalie Portman, Danny DeVito,
Annette Bening, Martin Short e Lukas Haas.
★★★★ 8,0
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