CRÍTICA | NÃO FALE O MAL
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 13 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 19 de set.

Existem filmes que causam um certo desconforto no espectador, que tem uma abordagem mais inusitada e chocante; e na maioria das vezes não são produções americanas. “Speak No Evil”, da Dinamarca e da Holanda, é um desses filmes, que foi um dos grandes destaques do terror em 2022, mas que não teve um lançamento oficial no Brasil. Dirigido por Christian Tafdrup, Speak No Evil é um suspense psicológico muito bem construído, com críticas sociais ácidas, uma trama intrigante, envolvente, e um final arrebatador e visceral.
Não demorou muito para que Hollywood botasse decidisse produzir uma refilmagem que acabou nas mãos da famosa produtora Blumhouse, obviamente. Dirigido por James Watkins, Não Fale O Mal segue a mesma trama do original, tem os mesmos acontecimentos, mas o terceiro ato é totalmente diferente, e menos impactante. O casal norte-americano Louise (Mackenzie Davis) e Ben (Scoot McNairy) estão viajando pela Europa com sua filha Agnes (Alix Lefler) e acabam conhecendo uma família britânica, Paddy (James McAvoy) e Ciara (Aisling Franciosi), que também estão viajando com seu filho Ant (Dan Hough), e acabam virando amigos. Paddy e Ciara convidam Louise e Ben para passar uma temporada na casa deles, mas aos poucos, algumas atitudes deles acabam sendo estranhas, e um clima tenso acaba se instalando entre eles.
"Speak No Evil" surpreendeu na época do lançamento pela sua trama inusitada, as situações constrangedoras que aconteciam entre as duas famílias, e a tensão crescente que ia surgindo aos poucos. Não Fale O Mal segue pelo mesmo caminho, porém sem o mesmo impacto que o original teve, inclusive o final, parecendo que o diretor deu uma “amenizada”. À medida que o casal Paddy e Ciara vão tendo atitudes estranhas, a tensão entre os casais vai aumentando, criando situações constrangedoras, e o roteiro consegue passar muito bem essa sensação, como se a gente estivesse no lugar deles. Sabemos que o pior vai acontecer, mas não sabemos exatamente quando e como vai acontecer, e cada detalhe contribui para essa tensão crescer – seja nas reações dos personagens, nos diálogos, ou nas linguagens corporais -. São situações simples, que acontecem no nosso cotidiano quando conhecemos alguém, mas acabam ganhando forças pelo roteiro.

As duas famílias são totalmente diferentes, principalmente nos seus costumes e ideais, e não é somente pelo choque cultural por serem de países diferentes – essa diferença de nacionalidades era maior no original -. Ben (Scoot McNairy) e Louise (Mackenzie Davis), aparentemente, são uma família feliz, são “certinhos” e tem bons costumes, levando um choque de realidade ao conhecerem Paddy (James McAvoy) e Ciara (Aisling Franciosi), que tem costumes e atitudes diferentes, mais cruéis talvez (ou se preferir inusitadas). No filme original, os casais também eram bem diferentes, porém, essa diferença era mais nítida e com mais intensidade, contribuindo para os momentos de tensão serem mais desconfortáveis. McAvoy está assustador no papel de Paddy – apesar de estar caricato demais -, um homem aparentemente legal, liberal, e com um carisma enorme, porém, vai mostrando a sua real face, de manipulador, perturbado, e agressivo, lembrando muito a sua atuação em Fragmentado.
Quem se destaca também é Mackenzie e sua Louise, que logo estranha as atitudes de Paddy e Ciara, se tornando mais emponderada e determinada a enfrentar a situação. O mesmo não pode ser dito pelo personagem de Scoot McNairy, que interpreta Ben, marido de Louise, um homem chato, bobão, certinho demais – mas isso já é de propósito do roteiro -, onde muitas vezes acaba irritando o espectador. As crianças também se destacam, principalmente Ant (Dan Hough), que não tem nenhuma fala, se comunicando muito bem através de gestos. A cena final de Ant é pesada, e um alívio para o personagem.

A principal diferença entre as duas produções é a intensidade – o filme de 2022 era muito mais intenso e genuíno – e o desfecho de Não Fale O Mal é totalmente diferente, e isso acaba sendo um ponto negativo. A sequência final do Speak No Evil dinamarquês foi mais chocante, revoltante, brutal, e perturbadora do que a da refilmagem, que opta por seguir o tradicional hollywoodiano: final “mais feliz”, perseguições e mortes no estilo slasher, onde um “herói” salva o dia. Não Fale O Mal não tem o mesmo impacto e a ousadia que o original teve, o que pode frustrar quem assistiu o original, mas é eficiente na sua proposta mais hollywoodiana, na construção do suspense e dos momentos constrangedores entre os casais, mas acaba ficando menos intenso e mais contido. O final de Speak No Evil dinamarquês foi mais chocante, visceral, brutal, saiu da zona de conforto do espectador, ao contrário do que acontece com a refilmagem americana.

NÃO FALE O MAL (SPEAK NO EVIL)
Ano: 2024
Direção: James Watkins
Distribuidora: Blumhouse
Duração: 110 min
Elenco: James McAvoy Mackenzie Davis, Scoot McNairy e Aisling Franciosi
NOTA: 7,5
Disponível no (assinatura + aluguel)















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