CRÍTICA | HOMEM-ARANHA: UM NOVO DIA
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 31 de jul.
- 5 min de leitura

A característica principal – e clássica – do Homem-Aranha era ser o “amigo da vizinhança”, um herói que sempre ajudava a combater os crimes de NY, e principalmente os moradores do seu bairro onde cresceu. Desde a introdução do herói no Universo Cinematográfico da Marvel, essa característica acabou se perdendo, focando mais em fazer ligações com outros filmes do MCU, e principalmente em se conectar com os eventos de os Vingadores, além de a trama depender bastante de outros heróis do estúdio (como o Homem de Ferro em De Volta ao Lar, e Doutor Estranho em Sem Volta Para Casa). Os três filmes anteriores estrelados por Tom Holland, apesar de serem incríveis, afastaram o herói de suas raízes originais, sacrificando a real identidade do aracnídeo – ser o amigo da vizinhança -. Felizmente, o novo filme do herói, Homem-Aranha: Um Novo Dia, traz de volta toda essa essência do personagem, se tornando o filme mais maduro e humano da franquia, e claro, fazendo aquela conexão “obrigatória” da trama com o MCU.
O mundo inteiro esqueceu quem é Peter Parker, e agora ele vive sozinho em NY tentando reconstruir a sua vida, conciliando os estudos com a sua responsabilidade em ser o Homem-Aranha. E essa nova realidade solitária é o maior acerto do roteiro, já que o nosso herói enfrenta dilemas mais reais, e principalmente, humanos: a falta de dinheiro para pagar o aluguel, o peso psicológico do isolamento e a dor de ver seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon), e sua namorada MJ (Zendaya), seguindo a vida sem lembrar de quem ele é, cria uma carga dramática intensa e inédita para os filmes do aranha de Tom Holland. E ao mesmo tempo, ao apostar em vilões em menor escala – como o Escorpião - em vez de ameaças cósmicas ou seres alienígenas de multiversos que ameaçam a nossa existência, o novo filme acaba ficando mais “pé no chão”, mais real e próximo dos vilões dos filmes do aranha de Tobey Maguire, por exemplo. E ainda que o longa traga participações especiais vindas do MCU e introduza a misteriosa personagem de Sadie Sink, “Um Novo Dia” ainda consegue manter a trama mais centrada em Peter Parker sendo o herói da vizinhança... até o terceiro ato, claro.

Outro ponto positivo – e que também acaba se afastando dos outros filmes do Homem-Aranha no MCU – é a fotografia, que abandona a estética limpa, ensolarada, e com planos mais abertos, para um visual mais sujo, realmente urbano. O uso de paletas com cores mais frias, e os cenários típicos de uma cidade grande, criam uma estética mais realista. Nova York deixa de ser uma cidade bonita e ganha uma atmosfera mais urbana e noir, se aproximando mais dos quadrinhos clássicos do Homem-Aranha e daquela clássica atmosfera dos primeiros filmes dos anos 2000. Os voos do herói entre os prédios de NY ganham mais vida, as cenas de luta são mais cruas, focadas mais no combate corpo a corpo do que as típicas cenas de ação grandiosas e com bastante efeitos em CGI. “Um Novo Dia” realmente não parece ser um filme do MCU, o Peter Parker/Homem-Aranha de Tom Holland finalmente tem uma história sem depender de multiversos e ligações com outros filmes; até o terceiro ato. Claro que “Um Novo Dia” faz parte do MCU, então essas conexões vão acontecer, e isso não é ruim, pelo contrário, mas o terceiro ato acaba destoando um pouco da proposta inicial. O roteiro se divide entre resolver os conflitos pessoais de Peter – e os do herói -, com a necessidade de preparar terreno para o próximo filme do universo da Marvel (Doomsday).
Pelo fato de o roteiro focar, principalmente, no desenvolvimento pessoal do herói, Homem-Aranha: Um Novo Dia acabou ganhando contornos de um drama psicológico, o que favoreceu para que Tom Holland entregasse a sua melhor atuação como Peter Parker/Homem-Aranha. O ator entrega a sua performance mais madura e real até agora, transmitindo no olhar o cansaço e a solidão por se sentir sozinho, e por ter perdido seus melhores amigos, o que é favorecido pela interação com MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon). Por mais que doa na gente também, o roteiro acerta em não fazer com que eles se lembrem do Peter Parker que conheciam, e vê-los interagindo sem saber quem ele é aumenta ainda mais o apelo dramático da história. As participações especiais do Justiceiro (Jon Bernthal) e do Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) são outros pontos positivos de Um Novo Dia: enquanto a dinâmica do Homem-Aranha com o Justiceiro é incrível graças à ótima química entre eles – Holland e Bernthal são amigos de longa data -, a participação do Hulk (que poderia interferir diretamente na trama) serve apenas como um apoio para o herói, evidenciando que ele está por conta própria. Contudo, a participação mais intrigante do filme é a da personagem de Sadie Sink. Sem dar muitos spoilers ou revelar a sua real identidade, ela serve como uma força antagônica para a história – talvez uma anti-heroína, não necessariamente uma vilã típica -. A atriz entrega uma atuação magnética e visceral; sua trama vai muito além de suas habilidades mentais destrutivas, encaixando-se perfeitamente na jornada de Peter Parker.

O saldo final de Homem-Aranha: Um Novo Dia é positivo: ao invés de ter o apoio das tecnologias das indústrias Stark, ou o auxílio de outros Vingadores para desenvolver a trama, e em vez de ameaças de multiversos e vilões cósmicos, o roteiro acerta em desenvolver o drama do próprio herói. Enfrentando dilemas mais humanos e reais, aproximando-se bastante da abordagem dos filmes de Tobey Maguire, e com a fotografia mais crua que enfatiza as ruas de Nova York – se tornando um cenário realmente urbano -, essa abordagem mais realista se potencializa. E ainda que o filme faça conexões com o futuro do universo compartilhado da Marvel, e que ele esteja “preso” a essa típica fórmula do estúdio, “Um Novo Dia” finalmente conseguiu fazer com que o herói se tornasse o protagonista definitivo da sua própria história, resgatando a maior essência do personagem: ser o amigo da vizinhança. No mais, com ótimas sequências de ação, embates incríveis, e uma amizade cheia de química entre Peter Parker e o Justiceiro, Homem-Aranha: Um Novo Dia se consolida como o melhor filme do aracnídeo de Tom Holland. Fique atento para uma única cena pós créditos – você vai ter que esperar até o final mesmo -, cena essa que dividiu opiniões e levantou diversas teorias sobre o futuro do Homem-Aranha no Universo Cinematográfico da Marvel.

HOMEM-ARANHA: UM NOVO DIA
Ano: 2026
Direção: Destin Daniel Cretton
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 145 min
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Jon Bernthal, Sadie Sink,
Jacob Batalon, Mark Ruffalo, e Florence Pugh.
★★★★ ½ 9,5













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