CRÍTICA | COYOTE VS. ACME

Durante décadas, diversas gerações acompanharam Wile E. Coyote – ou simplesmente Coyote – perseguindo e tentando capturar o Papa-Léguas com as mais diversas engenhocas criadas pela Acme, onde a “graça” do desenho era assisti-lo explodindo por conta de bigornas, foguetes, e sendo esmagado pelos mais diversos produtos defeituosos. Em Coyote vs. Acme, essa visão divertida do desenho ganha contornos mais maduros e satíricos ao transformar a clássica rivalidade em um carismático drama de tribunal, com Coyote processando a Acme por ser vítima dos produtos defeituosos – propositalmente – da corporação. Na trama, exausto de sempre se dar mal em tentar capturar o Papa-Léguas, Coyote acaba contratando o azarado advogado Kevin Avery (Will Forte) para processar a bilionária corporação, precisando enfrentar o intimador defensor e advogado da Acme, Buddy Crane (John Cena).
Curiosamente, Coyote vs. Acme teve uma história parecida com a sua trama: filmado em 2022 – com um lançamento para 2023 -, o filme dirigido por Dave Green acabou sendo engavetado pela Warner Bros. Pictures, gerando uma repercussão negativa com o público. Mas não demorou muito para o estúdio reverter a situação, e entrar em negociações com outras produtoras, com a Ketchup Entertainment adquirindo os direitos da distribuição do longa. E diante de tantos problemas e incertezas, o resultado final surpreende ao se consolidar como uma das melhores e mais criativas surpresas cinematográficas do ano. Saindo dos cenários clássicos do deserto e das estradas vazias onde aconteciam as perseguições entre Coyote e o Papa-Léguas, a trama foca em uma luta judicial entre a Acme e Wile E. Coyote, fazendo uma metáfora – ou crítica social – sobre o comportamento abusivo e autoritário das grandes corporações, de como elas priorizam o lucro para si mesmas e ignoram a segurança e bem-estar dos consumidores, o famoso capitalismo corporativo.

Essa sátira ao poder das megacorporações funciona bem, e torcemos para que Coyote vença a Acme, mas um dos pontos que mais se destaca é a parte técnica, em especial o contraste entre o live-action e a animação. Diferente dos filmes que fazem essa mistura com animação em 3D – como a trilogia do ouriço, Sonic -, Coyote vs. Acme preserva o estilo clássico do 2D, mantendo vivo o espírito e a expressividade de Coiote e de todos os personagens do Looney Tunes, além de criar um contraste visual fascinante como a décadas não se via (o filme de Dave Green lembrou bastante o clássico Uma Cilada Para Roger Rabbit). O impacto das bigornas, as explosões de dinamite, as expressões e reações hilarias do Coiote conferem um charme nostálgico para os fãs do desenho clássico.
Além do visual incrível entre o 2D e o live-action, Coyote vs. Acme também funciona pelo carisma do protagonista e na dinâmica com o elenco humano. A expressividade de Coyote é incrível, o público consegue sentir toda a frustração, a esperança, e os sentimentos do personagem, e tudo isso sem dizer nenhuma palavra, apenas com seus olhares e expressões que fazem uma conexão gigantesca com o público – claro, o apelo nostálgico também influencia -. Essa conexão emocional com o público é potencializada pela amizade de altos e baixos de Coiote com o seu advogado, interpretado brilhantemente por Will Forte. E aqui se forma um contraste que enfatiza crítica do abuso das corporações: Kevin Avery (Forte) é um advogado comum de poucos recursos, enquanto o personagem de John Cena, o também advogado Buddy Crane (deliciosamente caricato, cínico e ameaçador na medida certa), tem todos os recursos para defender a Acme. E para completar a nostalgia, Dave Green insere os outros personagens dos Looney Tunes (Pernalonga, Frangolino, Patolino, Gaguinho, entre outros), que funcionam muito mais do que um “fan service” e nostalgia, e mesmo alguns sendo participações especiais, todos tem uma grande importância para o desenvolvimento da trama, inclusive em momentos decisivos.

Vale destacar uma cena específica que pode emocionar os fãs de Looney Tunes - se você já viu o filme, deve saber qual é -, ressignificando uma rivalidade histórica com uma sensibilidade realmente tocante, mostrando que Coyote vs. Acme também tem um coração enorme e uma dedicação incrível com esses clássicos personagens que encantaram gerações. Em suma, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas do ano ao equilibrar a dinâmica clássica dos desenhos – em especial a junção de live-action com animação em 2D -, com um “filme de tribunal” repleto de críticas ácidas sobre corporações gananciosas, e de quebra, ainda tem uma sensibilidade rara que falta nas produções atuais. Dave Green respeita o legado dos Looney Tunes de uma forma impecável, ao mesmo tempo que usa sua liberdade criativa de forma inteligente, consolidando o filme como um clássico instantâneo. Pode não fazer tanto sucesso agora, mas com certeza vai envelhecer bem com o tempo. É divertido, nostálgico, tem muito bom humor, e o principal: o carisma magnético de Wile E. Coyote. E apesar de tudo o que passou indo atrás do Papa-Léguas, porque Coyote nunca desistiu de persegui-lo? Talvez, porque a verdadeira graça nunca esteve na sua vitória fácil, mas sim de sempre continuar tentando.

COYOTE VS. ACME
Ano: 2026
Direção: Dave Green
Distribuidora: Paris Filmes/ Ketchup Entertainment
Duração: 103 min
Elenco: Will Forte, John Cena, Lana Condor
★★★★ ½ 9,5










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