CRÍTICA | BACKROOMS - UM NÃO LUGAR
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 29 de mai.
- 5 min de leitura

Backrooms – Um Não Lugar, um dos filmes mais esperados do ano, estreia nos cinemas com muitas expectativas, principalmente pelos fãs dos fóruns da internet. Mas o que são as “backrooms”, e por que viralizou tanto nos últimos anos? Backrooms são espaços liminares – lugares vazios (salas, shoppings, prédios, estacionamentos), sem lógica alguma, como se fosse um labirinto infinito, causando uma sensação de isolamento e desconforto -, e geralmente ficam em uma dimensão paralela. Tudo começou em 2019 com uma postagem no fórum “4chan” – através de uma “creepypasta” - com a imagem de uma sala vazia e amarela, e um texto em sequência explicando o conceito e a lenda urbana do lugar. Aos poucos, outros usuários foram aprimorando essa lenda com diversas teorias, adicionando regras de sobrevivência, e outros elementos assustadores. E não demorou muito para esse mistério se tornar os famosos jogos das Backrooms, com centenas de níveis bizarros sem saída e criaturas aterrorizantes que habitavam alguns desses níveis.
Foi então que, em 2022, o youtuber Kane Parsons (de 16 anos na época), criou o famoso curta intitulado de “The Backrooms (Found Footage)”, que viralizou rapidamente – até o momento conta com mais de 70 milhões de visualizações -. Parsons acabou fazendo outros vídeos no mesmo estilo, criando uma “identidade visual” e expandindo a lenda urbana das Backrooms, e foi aí que a produtora A24 se interessou por esse universo – especialmente pelos curtas de Parsons -, contratando-o para criar e dirigir o filme. Porém, adaptar algo que não tem uma história, e introduzir personagens, é uma tarefa complicada, e esse acaba sendo o maior problema da adaptação Backrooms – Um Não Lugar: o roteiro, um pouco confuso para aqueles que não estão familiarizados com esse universo, mas que acerta em manter todos os elementos e a atmosfera claustrofóbica das backrooms. Na trama, Clark (Chiwetel Ejiofor) é proprietário de uma loja de móveis e descobre um acesso a um “mundo paralelo” escondido atrás das paredes de sua loja, um espaço liminar com intermináveis corredores que parecem um grande labirinto. Renate Reinsve também está no elenco.

Para quem conhece os filmes da produtora A24, já vai ter uma ideia de como Backrooms – Um Não Lugar vai ser: um filme que foca mais em um terror psicológico e sensitivo do que em sustos fáceis que se repetem. O roteiro escrito por Will Soodik (da série Westworld), cria um drama pessoal para os protagonistas, Clark (Chiwetel Ejiofor) e a psiquiatra Mary (Renate Reinsve), que é muito bem desenvolvido ao longo do filme. Clark teve um casamento fracassado, bebia demais, e passava mais tempo no trabalho do que com sua esposa, e Mary teve uma infância traumática vivendo com sua mãe, se tornando uma pessoa mais apática. É interessante a forma como Kane Parsons e o roteirista abordam o lado psicológico desses personagens – somadas com as competentes atuações de Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve (que faz sua estreia em filmes de terror) -, e que ganham mais intensidade quando eles acabam entrando nas backrooms. Mas apesar de Parsons ter construído muito bem o arco dramático dos personagens (para um filme de terror isso é ótimo), a conexão do público com o drama dos personagens não é tão forte, a trama de uma forma geral acaba ficando arrastada, e ainda se estende demais – com exceção da sequência de abertura, as backrooms aparecem somente lá pelos trinta minutos de projeção -.
A produtora A24 acertou muito em manter a direção de Backrooms – Um Não Lugar nas mãos de Kane Parsons, por que quem melhor que o próprio criador das backrooms para fazer uma adaptação cinematográfica? O design de produção é incrível, os cenários são assustadores, e por si só já constroem grande parte do terror psicológico. A tensão e mistério vão crescendo à medida que os personagens vão explorando o lugar, e os sons, os ruídos, o silêncio, até a trilha sonora, ajudam a causar um desconforto no espectador, tudo é incrivelmente estranho e caótico; a imersão que Parsons cria é fenomenal. Todas as cenas nas backrooms são ótimas, mas o filme acerta muito mais quando utiliza o “found footage”, estilo que Parsons usou nos seus curtas: a imersão é ainda maior, e tudo fica mais intenso e assustador. E para quem está se perguntando, o filme mostra poucos níveis (e aparecem rapidamente), sendo o das salas amarelas, o nível 0, o mais explorado. Além disso, as famosas criaturas que transitam nos níveis das backrooms e perseguem os jogadores, aparecem muito pouco, o que pode frustrar os fãs que querem ver mais desses seres, mas o trecho final compensa – a criatura realmente assusta e impressiona -, mantendo o espectador fisgado na tela com a intensa cena de perseguição.

Outro ponto que pode dividir os fãs é o desfecho, e é aí que entra a polêmica maior. A impressão é que o roteiro quer explicar o que são as backrooms, o que sinceramente não é necessário, já que ninguém realmente sabe o que são, e esse é o grande charme desse universo, o mistério. Mas ao mesmo tempo, o filme não explica direito, e a cena com a Async deixa tudo ainda mais confuso – nem a própria companhia sabe direito com o que estão lidando -, terminando com mais perguntas do que respostas. Muita coisa não foi mostrada, nem contada, e só vamos saber mais no segundo filme, que provavelmente vai acontecer, a depender da bilheteria. As projeções são ótimas, com uma possível arrecadação de U$ 80 milhões no final de semana de estreia.
Backrooms – Um Não Lugar é totalmente diferente, estranho (no bom sentido), é um filme de sensações, não tem cenas de ação e o ritmo é mais lento, é focado mais suspense/ terror psicológico e no mistério com os personagens explorando as backrooms do que um terror básico com sustos fáceis, além de ter um design de produção impecável e bizarro, totalmente imersivo. Não é um filme perfeito, o drama pessoal dos personagens é repleto de clichês, o ritmo é um pouco lento (da história em si, não das cenas nas backrooms, até por que, o universo das backrooms é assim mesmo, feito para sentir e explorar), mas é eficiente em capturar a sensação de isolamento, de inquietude, de que algo está errado, que você não pertence àquele lugar – ou talvez pertença -, exatamente a proposta dos curtas criados por Kane Parsons. Assistir Backrooms - Um Não Lugar é uma experiência um tanto diferente e surreal.

BACKROOMS - UM NÃO LUGAR
Ano: 2026
Direção: Kane Parsons
Distribuidora: A24/ Imagem Filmes
Duração: 115 min
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass
NOTA: 8,5
CONFIRA OS PRINCIPAIS CURTAS PRODUZIDOS
POR KANE PARSONS









Excelente avaliação!