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CRÍTICA | O ALBERGUE

Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
9 de set.
4 min de leitura


Lançado em 2006, O Albergue foi responsável por popularizar um subgênero do terror que ainda nem tinha nome específico, o “torture porn”, filmes com cenas de tortura, gore, mutilações, e violência explicita – na verdade, o primeiro Jogos Mortais já havia dado um passo inicial, esse estilo de filme se popularizou mesmo com O Albergue -. Dirigido por Eli Roth, que anteriormente havia dirigido o cultuado Cabana do Inferno (2002), e produzido por Quentin Tarantino, “Hostel” dividiu a crítica entre aqueles que acharam a obra um exercício vazio de sadismo e violência extrema gratuita, e os que enxergaram uma forte crítica social ao turismo predatório, a xenofobia, e a mercantilização da vida humana. Na trama, os viajantes americanos Paxton (Jay Hernandez) e Josh (Derek Richardson) estão fazendo uma viagem e ficam sabendo de um albergue na Eslováquia com mulheres para transarem à vontade. Junto como seu novo amigo, o islandês Oli (Eython Gudjonsson), eles acabam indo para o país, se divertem de todas as formas possíveis, porém, eles acabam sendo alvos de um esquema de sequestro e tortura. Barbara Nadeljakova, Jana Kaderabkova, Rick Hoffmann, e Jan Vlasák também estão no elenco.


No primeiro ato de O Albergue, o diretor Eli Roth constrói uma atmosfera de suspense, mistério e “falso conforto”. Ao mesmo tempo que eles estão se divertindo com as garotas, bebendo e fumando, o público consegue perceber que algo estranho está acontecendo, mas os personagens não. Essa ingenuidade – e a irresponsabilidade - de Paxton e Josh os impedem de perceber o perigo que estão se envolvendo, e a situação começa a sair fora do controle quando cada um deles começa a desaparecer. Esse suíço gradual vai preparando o terreno para a parte mais brutal do filme, onde o suspense psicológico e o mistério que cerca a cidade dá lugar a uma violência gráfica extrema. Roth choca o público ao expor com detalhes cruéis o sadismo das sessões de tortura, transformando a viagem dos personagens em um espetáculo visceral de mutilações, desespero, sangue e situações nojentas.



Mas por trás de toda essa barbárie de sadismo e tortura, O Albergue traz diversas críticas sociais, e uma delas é sobre a mercantilização da vida e o sadismo humano. No filme, pessoas ricas pagam uma quantia alta para torturar turistas, onde cada nacionalidade tem um preço específico – os mais caros são, obviamente, os americanos -. Além disso, Eli Roth também aborda um retrato incomodo da negligência social e da miséria extrema do leste Europeu pós-União Soviética: as crianças marginalizadas que assaltam na periferia, mostrando como o próprio ambiente molda indivíduos vulneráveis que, para sobreviver, precisam entrar na criminalidade. As personagens Natalya (Barbara Nadeljakova) e Svetlana (Jana Kaderabkova) também se encaixam nesse esquema, já que elas seduzem e ajudam no sequestro para levá-los ao local das torturas.


Os aspectos técnicos e artísticos de O Albergue também se destacam, e são fundamentais para potencializar a sensação de horror e desespero. A fotografia da cidade eslovaca captura a beleza rustica e histórica do lugar, ao mesmo tempo que as pequenas ruas passam a sensação de perigo constante, e esse contraste é potencializado pelos tons mais frios, enfatizando a atmosfera mais suja e abandonada da cidade. Os corredores escuros e cheios de sangue da fábrica abandonada exalam uma atmosfera nojenta de um matadouro, potencializando ainda mais o horror e o desespero de estar preso e esperando para ser torturado e morto. E por mais absurda que a premissa de O Albergue possa parecer, a base do roteiro foi inspirada em uma perturbadora história real. O diretor Eli Roth ficou sabendo de um site na “Deep Web” da Tailandia onde milionários pagavam uma quantia alta para entrar em uma sala e atirar na cabeça de uma pessoa. O site afirmava que essas pessoas haviam se voluntariado para isso – cidadãos que viviam na extrema pobreza ou com dívidas -. A partir dessa ideia, o diretor apenas transportou essa ideia para o leste europeu, como argumento de que o filme satirizava a ignorância dos jovens que viajavam pelo mundo achando que tudo era fácil. Na época, o governo da Eslováquia repudiou o filme e o diretor, alegando que mostrava uma imagem errada do país, como se fosse violento, miserável e corrupto.



O Albergue tem um outro final alternativo, talvez um pouco mais perturbador e que foge daquele tom mais comercial, de tortura e violência. A versão original do diretor mostrava Paxton (Jay Hernandez) sequestrando a filha pequena de um dos torturadores, enquanto na versão do cinema, Paxton o mata no banheiro da estação do trem. Em suma, O Albergue é um dos filmes de terror que mais se destacaram na década de 2000, que chocou o público com a sua extrema violência, sangue, as cenas de tortura, as mutilações, o desespero dos personagens, e o clima de mistério que espreita na cidade. Mas por trás desse sadismo gráfico, o filme de Eli Roth se torna mais do que apenas um espetáculo gratuito de violência, também é uma crítica social sobre a negligência dos jovens durante as viagens, a mercantilização do corpo humano com um valor específico para torturar, e um debate atemporal sobre os limites éticos da humanidade: até que ponto o prazer humano deve chegar? O filme ganhou duas continuações nos anos seguintes, inferiores ao original, principalmente o terceiro.





O ALBERGUE


Ano: 2006

Direção: Eli Roth

Distribuidora: Sony Pictures

Duração: 94 min

Elenco: Jay Hernandez, Derek Richardson, Eython Gudjonsson,

Barbara Nadeljakova, Jana Kaderabkova, Rick Hoffmann, e Jan Vlasák



★★★★ 7,5




Disponível no Prime + Sony One

























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