CRÍTICA | FAÇA ELA VOLTAR
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 22 de ago.
- 4 min de leitura

O gênero do terror está sempre em constante mudança, e as vezes surgem produções que se destacam entre os diversos lançamentos fracos, que focam nos sustos fáceis do que em uma trama mais desenvolvida. Desde a década passada, o chamado “terror contemporâneo” tem salvado gênero, produções que abordam mais o lado psicológico do que o terror mais comum, produções essas vindas – principalmente – da produtora A24: A Bruxa, O Babadook, Hereditário, Midsommar, filmes “diferentes” que abordam o luto, traumas, e que misturam situações dramáticas com elementos sobrenaturais e cenas mais “pesadas” para surpreender o público. E é aí que entra o filme em questão, Faça Ela Voltar, dirigido pelos irmãos Michael e Danny Philippou, e que está sendo considerado o melhor terror do ano, até agora.
Em 2022, a dupla lançou o ótimo Fale Comigo considerado um dos melhores filmes de terror daquele ano, aquele da mão embalsamada que os jovens se conectam com os espíritos, e claro, tudo sai fora de controle. E agora com esse Faça Ela Voltar, os irmãos Philippou entram na lista dos diretores mais promissores da atualidade. Estrelado por Sally Hawkins (de A Forma da Água), “Bring Her Back", no original, usa o body horror com cenas gore e gráficas para abordar o luto, a loucura, e o que uma mãe é capaz de fazer para lidar com a perda de sua filha. Na trama, os irmãos Piper (Sora Wong) – que é deficiente visual - e Andy (Billy Barrat), são adotados temporariamente por Laura (Hwakins), uma mãe excêntrica que recentemente perdeu sua filha mais velha. Durante a estadia, Laura começa a agir estranho, fazendo com que Andy desconfie que alguma coisa está errada, especialmente com a presença do quieto e misterioso Oliver (Jonah Wren Phillips).

Faça Ela Voltar começa de forma devagar – sem considerar os primeiros intensos dez minutos -, o roteiro vai criando o clima de mistério e suspense, e aos poucos as situações estranhas e bizarras começam, nos deixando curiosos com o que está acontecendo. O filme também é direto, e não demora muito para percebermos que Laura tem segundas intenções com os irmãos, e as pistas são mostradas ao longo da projeção: símbolos misteriosos, fitas em VHS mostrando rituais satânicos, detalhes em vários cantos da casa, o mistério vai se construindo para que o público desvende, e tudo isso sem dar muitas explicações. Mas antes de tudo, Faça Ela Voltar é um drama sobre uma mãe enlutada, depressiva, e também sobre dois irmãos com um passado trágico, e o desfecho visceral enfatiza bem isso, além das motivações da personagem de Hawkins, e claro, bebendo da fonte do body horror com cenas pesadas que causam desconforto em quem assiste. Michael e Danny Philippou não poupam o espectador com cenas gráficas, perturbadoras, daquelas que pode deixar até quem está acostumado com produções nesse estilo incomodadas, além do clima de suspense e mistério intenso que deixa o espectador ainda mais aflito com o que pode acontecer. Os cenários da casa também ajudam a deixar a sensação de desconforto, conhecemos todos os cômodos da casa, e isso aumenta ainda mais o mistério que envolve a trama.
Mas Faça Ela Voltar não seria um filme assustador se não fossem pelas atuações do quarteto de protagonistas, Sally Hawkins, Sora Wong, Billy Barrat, e Jonah Wren Phillips. O roteiro desenvolve muito bem os personagens – o que não é uma surpresa levando em consideração os filmes da produtora A24 -, mostrando os traumas e dramas pessoais de cada um deles, o suficiente para que o espectador tenha raiva de alguns personagens, e também ficar preocupados com outros. Sally Hawkins está sensacional no papel de Laura, dominando a tela em todos os momentos, indo de uma mãe amável para uma mulher perturbada, cruel, e insana em questão de minutos. A personagem consegue nos deixar com raiva pelas suas atitudes, angustiados pelo horror que Laura causa para os irmãos, e até para o outro garotinho, Oliver, e alguns podem até justificar as atrocidades que ela faz por causa do luto e da dor da perda de sua filha – inclusive, o desfecho dramático e mais triste pode ajudar nisso -, mas tudo tem limites.

Sora Wong e Billy Barrat, que interpretam os irmãos Piper e Andy, respectivamente, ainda que tenham atuações mais contidas, entregam ótimas performances contribuindo para aumentar ainda mais o mistério e suspense, e claro, torcer para que consigam se livrar das maldades de Laura. E o fato de Piper ser cega, e o seu irmão ser “os olhos” dela, e a cumplicidade que eles tem um com o outro, só aumenta as possibilidades de criar momentos de tensão e raiva, resultando em desdobramentos que prendem ainda mais a atenção do espectador. E por fim, a atuação de Jonah Wren Phillips, sem praticamente nenhuma fala, apenas com olhares assustadores e com sua aparência sinistra, dono das cenas mais tensas e pesadas da produção.
Minha única ressalva é o desfecho, que ao invés de ir para o lado mais sobrenatural, com possessões e os rituais satânicos, decide ir para um final mais dramático e intenso, mas no fim, acabou sendo um final perfeito para a proposta do filme como um todo, provando que Faça Ela Voltar é mais um drama psicológico com toques de terror, do que um filme de terror em si, mostrando até que ponto o luto e a dor podem levar as pessoas a fazer atrocidades. Bring Her Back não é um filme fácil de assistir, seja pelos momentos mais intensos e chocantes, pelas atrocidades que a personagem de Sally Hawkins faz, ou pelas sequências gráficas e violentas com muito sangue, gore, e momentos perturbadores. É o melhor e mais intenso filme de terror do ano, provando que o terror gráfico é mais impactante do que um terror genérico de assombração barata.

FAÇA ELA VOLTAR
Ano: 2025
Direção: Michael e Danny Philippou
Distribuidora: A24
Duração: 99 min
Elenco: Sally Hawkins, Sora Wong, Billy Barrat, e Jonah Wren Phillips
NOTA: 9,0












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