CRÍTICA | O AGENTE SECRETO
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 6 de fev.
- 4 min de leitura


04 Indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura, e Melhor Elenco
Há exatos um ano atrás, estávamos fervorosos e na torcida para Ainda Estou Aqui ganhar as estatuetas do Oscar de Atriz para Fernanda Torres, Melhor Filme, e Melhor Filme Internacional (único prêmio conquistado), e agora vamos sentir toda essa emoção novamente com O Agente Secreto. Estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kléber Mendonça Filho, O Agente Secreto é um filme puramente brasileiro, um novo clássico para o nosso cinema, e é incrível o sucesso e reconhecimento mundo afora, sendo premiado em diversos festivais – Cannes, Globo de Ouro -, e indicado a maior premiação do cinema. A produção é impecável, seja pelas atuações, pelo contexto histórico, a direção de arte, e o roteiro, que vai se intercalando entre humor, drama, e thriller de espionagem. A trama se passa em Recife no ano de 1977, durante a ditadura militar no Brasil, e conta a história de Marcelo (Wagner Moura), um ex-professor universitário que retorna a sua cidade natal para esquecer o seu passado durante a ditadura, e seguir a sua vida junto com seu filho. Em Recife, ele acaba ficando em um pequeno condomínio com outros refugiados, e tudo estava tranquilo até descobrir que dois assassinos de aluguel chegaram na cidade para matá-lo.
Dividido em três capítulos, O Agente Secreto é um filme quase que irretocável, com diversos momentos da história e da cultura brasileira, porém, é longo e parado (2h40min de duração), e além de ter um pouco de paciência para assistir, você precisa prestar bastante atenção para entender o contexto e os conflitos da trama, mas garanto que você não vai se arrepender. Apesar de se passar durante a ditadura militar no Brasil, o filme de Kleber Mendonça Filho não mostra – diretamente – os horrores da ditadura como em Ainda Estou Aqui, mas mostra os atos e crimes impunes das autoridades e do governo, os crimes ao ar livre e a população agindo com a maior naturalidade, como a intensa sequência de perseguição no final, os nomes dos mortos esquecidos pelo regime, e por aí vai. O roteiro pode parecer um pouco inconstante, mudando de foco lá pela metade do filme, e talvez por isso a longa duração: a trama principal de espionagem que vinha desde o início, se torna um drama com toques de humor mostrando a realidade do Brasil na época, mas isso é muito importante para a construção da história e de todo o contexto político e social. Mas esse clima de suspense e de espionagem retornam com o terceiro capítulo, quando os assassinos de aluguel iniciam as buscas pelo personagem de Wagner Moura, dando início ao bem-produzido ato final.

A direção de arte e a fotografia de O Agente Secreto também se destacam, absolutamente impecáveis, mostrando a cidade Recife dos anos 70 com muitos detalhes, prédios históricos, os carros antigos, os cenários das ruas com aspectos sujos, e o tom mais amarelado e quente torna a ambientação ainda mais realista, fazendo com que a produção tenha ares de filme independente, de baixo orçamento, proporcionando uma experiência imersiva para o espectador. Vale mencionar o antigo e histórico cinema São Luiz, palco de momentos importantes para a trama, que também conta com referências a grandes clássicos da época, como Tubarão, A Profecia, e não são apenas menções aleatórias, os filmes são inseridos na trama por motivos específicos.
O Agente Secreto traz o retorno triunfal de Wagner Moura para o cinema brasileiro após mais de uma década atuando em filmes internacionais, interpretando Marcelo/Armando. O personagem coube perfeitamente com a versatilidade de Moura, e isso é provado em diversos momentos da trama: as vezes ele é empático e amoroso, mas outras vezes ele precisa agir rápido e estrategicamente para sobreviver, com destaque para a cena final. O ator cria um personagem complexo, paranoico, intenso, muitas vezes demonstrando apenas por expressões corporais e olhares marcantes. Os coadjuvantes também estão incríveis e todos tem seus momentos - Maria Fernanda Candido e Gabriel Leoni rendem nos momentos decisivos e importantes para a trama, Hermila Guedes, Thomas Aquino, Carlos Francisco, Alice Carvalho também completam o elenco estelar, mas quem merece destaque é a veterana Tania Mara, uma das maiores e notáveis surpresas de O Agente Secreto. A atriz interpreta Dona Sebastiana, a “síndica” do condomínio onde o personagem de Wagner Moura fica hospedado, esbanjando carisma e falando tudo sem filtro nenhum, roubando a cena sempre que surge em tela, uma querida daquelas que você passaria horas conversando e iria se divertir bastante.

O Agente Secreto é um filme simples, mas bem-produzido, seja pela irretocável parte técnica, quanto pelo roteiro bem escrito, equilibrando drama, suspense, momentos tensos, e com um contexto histórico incrível que prende a atenção do público, mesmo nos momentos mais arrastados. Kléber Mendonça Filho cria uma Recife nos anos 70 nostálgica – apesar da situação política da época -, fazendo com que o público viva a década como se estivesse lá, ao mesmo tempo que vamos conhecendo personagens reais, seus conflitos, e os motivos que os tornaram refugiados e perseguidos. É inevitável a comparação de O Agente Secreto com Ainda Estou Aqui, já que ambos se passam na época da ditatura, mas o filme de Walter Salles é emotivo, mostrando os horrores e a opressão que o povo brasileiro passou, principalmente os envolvidos diretamente no conflito, enquanto o filme de Kléber Mendonça Filho mostra mais o cotidiano das pessoas durante a ditadura, a cultura, lendas urbanas, a realidade de uma Recife "setentista" tomada por um dos momentos mais tensos da história brasileira. O Agente Secreto é um filme totalmente brasileiro, puramente latino-americano, um marco para o nosso cinema, reafirmando Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura como um dos nomes mais renomados e importantes do cinema atual, e o reconhecimento está aí, com o sucesso em festivais pelo mundo todo, e agora, com o maior prêmio do cinema mundial.

O AGENTE SECRETO
Ano: 2025
Direção: Kléber Mendonça Filho
Distribuidora: Vitrine Filmes
Duração: 159 min
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Candido, Gabriel Leoni,
Hermila Guedes, Thomas Aquino, Carlos Francisco, Alice Carvalho.
NOTA: 9,0











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