CRÍTICA | DAYLIGHT
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 4 de ago.
- 4 min de leitura

Os filmes catástrofe eram muito comuns na década de 1970, se estabelecendo como um subgênero marcante, divertido e previsível que lotava as salas de cinema. Filmes como O Destino de Poseidon e Inferno na Torre estabeleceram as regras básicas desse cinema de destruição: coloque um grupo de pessoas desconhecidas (e algum animal de estimação) em um ambiente qualquer — geralmente fechado — e destrua o cenário ao redor de alguma forma, seja por falha técnica ou desastre climático. Acrescente clichês típicos, personagens burros e irritantes, um herói central, mortes dramáticas e lições de moral, e você tem um típico filme catástrofe. Ao longo do tempo, essa fórmula foi se esgotando, resultando em pouquíssimos lançamentos expressivos na década de 1980. Porém, o gênero voltou com tudo nos anos 90, mas com uma escala de destruição global, atingindo cidades inteiras, regiões e até o planeta todo.
Entre esses diversos lançamentos da década de 1990, Daylight (1996) trouxe de volta o clássico cinema catástrofe tradicional, seguindo a cartilha dos anos 70, em especial O Destino de Poseidon. Estrelado por Sylvester Stallone e dirigido por Rob Cohen, o longa resgata a essência do subgênero ao trocar os transatlânticos e arranha-céus por um túnel submerso na cidade de Nova York. Na trama, um grupo de assaltantes em fuga colide em alta velocidade contra caminhões que transportavam ilegalmente lixo tóxico inflamável dentro do túnel que liga Manhattan a Nova Jersey, gerando uma explosão em cadeia que sela as duas extremidades da estrutura. Presos entre a fumaça, o fogo e a ameaça iminente de inundação, os sobreviventes contam com a ajuda de Kit Latura (Stallone), que se torna a única esperança de guiar o grupo até a superfície. Viggo Mortensen e Danielle Harris também estão no elenco.

Como Daylight segue rigorosamente essa cartilha, o roteiro escrito por Leslie Bohem não tenta ser original. Há situações inviáveis e soluções previsíveis onde tudo dá certo no final, além dos diversos clichês do gênero. Apesar disso, o filme é extremamente divertido, principalmente pelo prazer de ver o astro Sylvester Stallone salvando o dia. Rob Cohen começa introduzindo rapidamente os personagens que passarão por poucas e boas dentro do túnel, mostrando os dramas pessoais de cada um enquanto os eventos que culminam no acidente vão se desenrolando. A partir daí, o longa se torna um filme de sobrevivência claustrofóbico, repleto de personagens irritantes tomando decisões questionáveis, transformando o túnel em um verdadeiro labirinto de perigos: o oxigênio diminui, o teto desaba e a água do Rio Hudson começa a invadir o local, criando momentos de desespero e alta intensidade. Colocaram até um cachorro — um dos maiores clichês do gênero — para criar uma tensão e apreensão artificiais que, no fim, pouco funcionam.
Embora a história siga para um caminho bastante previsível, Daylight acerta quando o assunto são os seus efeitos especiais. Em 1996, a era digital de Hollywood estava apenas começando e, mesmo com muitas produções da época aderindo completamente ao CGI, Rob Cohen optou pelo uso massivo de efeitos práticos e pirotecnia real. A sequência inicial do acidente foi filmada com cenários em miniatura ricamente detalhados e explosões de verdade, entregando um impacto visual realista que o CGI moderno dificilmente consegue replicar. Outro ponto forte é a junção desses cenários físicos — com as inundações e o teto colapsando — ao excelente design de som, que potencializa a atmosfera sufocante e a sensação palpável de se estar preso naquele ambiente condenado.

Em relação aos personagens, o longa preenche todas as vagas dos estereótipos clássicos: o ricaço arrogante e destemido (Viggo Mortensen), a jovem dramática e contestadora (Amy Brenneman), a família em crise, o casal de idosos dedicado, além de um grupo de detentos rebeldes, e como de costume, eles tomam decisões erradas e irritam o espectador com sua teimosia. O problema é que o roteiro gasta muito tempo tentando aprofundar esses dramas periféricos que, no fim das contas, servem apenas para justificar mortes "heroicas". A grata surpresa do elenco fica por conta de Sylvester Stallone. Seu personagem, Kit Latura, carrega a culpa de um erro do passado que provocou mortes, mas esse drama não é tão explorado pelo texto, mostrando apenas o básico para o público se conectar com ele, entregando um protagonista mais humano, vulnerável e visivelmente cansado. Não é uma atuação genial — e nem precisa ser; Kit resolve os problemas na base do improviso, da engenharia e da resiliência, sem precisar sair no soco, afastando-se da imagem do herói musculoso e imbatível da franquia Rambo. Dos coadjuvantes, vale destacar Amy Brenneman como Madelyne, que foge do clichê da "donzela indefesa", assumindo uma postura ativa de liderança civil e mostrando uma ótima química com Stallone.
No fim das contas, Daylight não tenta reinventar o cinema catástrofe, e nem precisa disso para funcionar. O filme abraça suas escolhas absurdas, sua previsibilidade e seus personagens caricatos, entregando um blockbuster legítimo e nostálgico dos anos 90. O roteiro pode não entregar nenhuma lógica plausível e abusar de situações que só acontecem no cinema, mas a direção enérgica de Rob Cohen, a entrega física de Sylvester Stallone e os impressionantes efeitos práticos fazem o longa cumprir sua promessa com louvor: entregar um filme pipoca honesto, com duas horas de puro escapismo, tensão e excelente entretenimento.

DAYLIGHT
Ano: 1996
Direção: Rob Cohen
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 114 min
Elenco: Sylvester Stallone, Amy Brenneman, Viggo Mortensen,
Danielle Harris.
★★★★ 8,0
Disponível no












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