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CRÍTICA/ ESPECIAL | TRÓIA (2004)

  • Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
    Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
  • 14 de jul.
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 3 horas


As duas maiores obras do poeta grego Homero são “A Ilíada”, que narra a famosa guerra de Tróia, e a trajetória do lendário guerreiro Aquiles, e “A Odisseia”, que narra o retorno de Odisseu/Ulisses para a ilha de Ítaca após a queda de Tróia, enfrentando criaturas mitológicas e a fúria dos Deuses. Em 2004, o diretor Wolfang Petersen lançou a sua versão de A Ilíada com Tróia, estrelado por Brad Pitt, Eric Bana, e Orlando Bloom, considerada uma das últimas grandes produções de épicos históricos de Hollywood, e que muda bastante coisa em relação a obra de Homero. O filme foi bastante criticado por ser uma adaptação infiel a obra, pela descaracterização de diversos personagens, e pela ausência da mitologia divina – os Deuses interferiram diretamente na guerra de Tróia -. Essa escolha controversa em não abordar os elementos sobrenaturais envolvendo os Deuses, e as mudanças significativas na história original e nos personagens, tornou a produção mais realista e atual, funcionando melhor para o grande público do que para os fãs obra de Homero. E mesmo apresentando diversos problemas, principalmente no ritmo da história, Tróia é um dos maiores blockbusters épicos do cinema moderno, um primor técnico impressionante.


Na trama, os irmãos – e príncipes de Tróia – Heitor (Eric Bana) e Paris (Orlando Bloom) vão até Esparta para um acordo diplomático com Menelau (Brendan Gleeson), o atual rei da cidade. Porém, Paris acaba se apaixonando por Helena (Diane Krueguer) – esposa de Menelau -, que decide voltar junto para Tróia, causando revolta no rei de Esparta. Menelau acaba pedindo ajuda para o seu irmão Agamemnon (Brian Cox), o ganancioso rei de Ítaca, que já tinha em seus planos conquistar Tróia. E com a ajuda de Aquiles (Brad Pitt) e seu temido exército, além de Odisseu (Sean Bean), os espartanos partem para o conflito que marcará a história da humanidade. Peter O’Toole, Rose Byrne, Saffron Burrows, e Garett Hedlund também estão no elenco.



Os filmes épicos atingiram o seu ápice entre as décadas de 50 e 60 – no finalzinho da “era de ouro” de Hollywood -, mas não demorou muito para que essas grandiosas produções perdessem o seu público, reduzindo o número de lançamentos a cada década, até o ano de 2000 com o lançamento de Gladiador. Embalado pela ótima recepção do épico de Ridley Scott, e também pelo enorme sucesso da trilogia O Senhor dos Anéis, o diretor Wolfang Petersen, e a Warner Bros., viram a oportunidade perfeita para produzir Tróia, que muitos esperavam que fosse a “Iliada filmada”, porém, as decisões do roteiro diminuíram as expectativas, e isso acabou sendo o “calcanhar de Aquiles” da produção. Tróia é um espetáculo técnico, e isso não tem como discordar: os cenários grandiosos, a cidade de Tróia, a região litorânea ao redor da região, as grandiosas batalhas entre os soldados (em especial a luta entre Aquiles e Heitor, que é realmente tensa e com um realismo impressionante), a sequência final da destruição de Tróia, um incrível trabalho de fotografia e direção de arte, aliado a ótimos efeitos especiais usados de forma inteligente. Wolfang Petersen optou por não utilizar muito a tela verde, criando réplicas dos muros de Tróia na região de Malta, e até o famoso cavalo de madeira, além de rodar as batalhas épicas com diversos figurantes – o CGI multiplicava os soldados posteriormente -, nas dunas de Cabo San Lucas, no México.


Como espetáculo visual, Tróia é irretocável e incrível, puro cinema épico e de entretenimento, porém, em relação as atuações, o filme deixa muito a desejar: enquanto Brad Pitt, Peter O'Toole, e Eric Bana tem interpretações com uma maior densidade dramática, Orlando Bloom e Diane Krueger pecam pela superficialidade e a falta de química entre eles. Sempre mostrando seu porte físico de dar inveja, Brad Pitt cria um Aquiles bastante enigmático, imprevisível, e mais contido, às vezes movido pelo desejo de imortalidade e gloria, e outras vezes por vingança, transmitindo toda a arrogância de um semideus que sabe a reputação que tem. Se Aquiles é mais frio e individualista, Eric Bana e seu Heitor é extremamente o oposto, o coração do filme. Bana faz um príncipe honrado e humano, determinado a salvar Tróia e sua família, criando uma empatia enorme com o público. Vale destacar o embate entre Aquiles e Heitor, que é de um realismo técnico impressionante. No mesmo arco de Heitor está o seu pai, o rei Príamo, interpretado pelo veterano Peter O’Toole, que confere autenticidade para o personagem, conseguindo passar para o espectador toda a dor pela queda do seu império. A cena em que ele vai até o acampamento de Aquiles é um dos momentos mais emocionais do longa. E no meio disso está Brian Cox, que interpreta o ganancioso rei de Miscena, Agamemnon, que apesar de estar um pouco caricato e exagerado nos “chiliques” do personagem (e bem diferente em relação a obra de Homero), constrói um vilão detestável e cruel.



Em contrapartida, o que desencadeia todo o conflito que resultou na infame guerra de Tróia é o ponto mais fraco do filme: o romance proibido do príncipe Paris (Orlando Bloom) com Helena (Diane Krueger). Paris parece um adolescente inconsequente, que se revela um covarde em não assumir o que faz, criando uma antipatia enorme com o público, e Helena ficou muito apagada e sem carisma – apesar da sua beleza -. E para piorar, a química entre Orlando Bloom e Diane Kruger não funciona, o que enfraquece todo o romance e as motivações que justificam a guerra e da destruição de Tróia.

 


| AS DIFERENÇAS EM RELAÇÃO A OBRA DE HOMERO |


O diretor Wolfang Petersen teve total liberdade em alterar a obra escrita pelo poeta grego Homero, e junto com o roteirista David Benioff, fizeram mudanças significativas na história. Em nenhum momento o filme fica chato, ou arrastado, os conflitos e as reviravoltas são interessantes e tudo fica mais fluido e dinâmico, porém, a história como um todo fica sem profundidade, e muitas coisas não são explicadas. A diferença crucial é a ausência da mitologia grega – na obra de Homero, os Deuses influenciavam diretamente no conflito -, e já no filme aparecem como “lendas” e em estatuas espalhadas pela cidade, sendo assim, a produção ganha tons mais realistas do que a obra. Um exemplo bem claro é a morte de Aquiles: em A Ilíada, ele sequer chega a entrar no cavalo de madeira, e acaba morrendo antes, atingido no seu calcanhar pelo Deus grego Apolo (Aquiles havia profanado o seu templo, invocando a sua fúria e ódio pelo guerreiro). Outra diferença relevante é na duração da guerra de Tróia, que leva dez anos na obra, mas no filme tudo se resolve em apenas algumas semanas, o que interfere em núcleos menores, como a relação entre Aquiles e Briseida (Rose Byrne).


Essas mudanças em relação a obra foram feitas para que os personagens – principalmente os vilões – tivessem um final punitivo, uma “justiça poética”, mais hollywoodiano, e além de Aquiles, o destino de alguns deles provam bem isso. Menelau (Brendan Gleeson) é morto por Heitor na sequência em que Paris luta contra o rei de Esparta, enquanto na obra de Homero ele sobrevive a guerra e traz Helena de volta para a sua terra. Já seu irmão, Agamemnon (Brian Cox), sobrevive a guerra de Tróia e volta para a Grécia, mas acaba sendo assassinado pela sua esposa e o amante, e no filme de Petersen ele é morto por Briseida. E por fim, no filme, Paris (Orlando Bloom) sobrevive a destruição de Tróia e foge pelos tuneis secreto da cidade com Helena (Diane Krueguer), Briseida, e Andrómaca (Saffron Burrows) e seu filho com Heitor, enquanto na obra Paris é morto por uma flecha envenenada antes mesmo da sequência do cavalo de madeira. Vale destacar o destino trágico e sombrio de Andromáca e seu filho, considerado um dos mais devastadores da mitologia grega: na obra, os líderes gregos – com medo de que o filho de Heitor se vingasse do pai quando crescesse -, jogam o bebê do alto dos muros de Tróia, que morre na queda. Essa tática de assassinar as crianças foi usada com todas de Tróia. Já Andromaca foi levada pelos gregos como escrava.





| A VERSÃO DO DIRETOR |


Em 2007, Wolfang Petersen lançou a versão definitiva que ele queria que fosse lançada nos cinemas, com 31 minutos a mais de cenas inéditas, com subtramas e arcos de alguns personagens que fazem mais sentido, além de um tom mais brutal.


  • A violência foi umas das principais mudanças em relação a versão do cinema, e grande parte dessa “suavização” foi para obter uma classificação etária mais baixa no lançamento. Nas sequencias dos combates, a violência é bem maior, com mais sangue, decapitações e mutilações. A cena do ataque a Tróia foi a que mais sofreu alterações, além de ser mais extensa. Os soldados gregos violentavam as mulheres, e o mais brutal eram as mortes das crianças de Tróia, arrancadas do colo mas mães e jogadas. Alguns soldados receberam essa ordem, e isso foi mostrado durante o filme, mas o ato em si acabou sendo cortado da versão final.

 

  • Alguns diálogos extras foram adicionados na versão estendida, o que dá mais profundidade às motivações de alguns personagens, além de um desenvolvimento melhor e uma relação mais íntima (em relação aos casais). Há uma conversa entre Heitor e Paris no navio quando eles voltam para Tróia, onde Heitor repreende o seu irmão mais novo pelas ações e a imaturidade. Outro diálogo relevante é entre Aquiles e seu primo, Pátroclo (Garret Hedlund), antes de ele ir para o campo de batalha, se passando por Aquiles, e ser morto. É uma conversa mais íntima sobre o motivo real que eles estão lutando. A relação entre os casais Helena e Paris, e Aquiles e Briseis, também ganham mais diálogos, além de uma nudez mais explicita.

 

  • O desfecho também foi editado no corte final: a sequência estendida mostra os refugiados – e sobreviventes – de Tróia parando no horizonte e olhando, de longe, a cidade de Tróia tomada pelas cinzas.

 

  • A trilha sonora também recebeu modificações. Wolfang Petersen inseriu notas mais “agressivas” e graves nas cenas de batalha, além de introduzir trilhas rejeitadas pelo compositor Gabriel Yared. O resultando final é um filme mais sombrio e menos melodramático.



Por fim, Tróia é um blockbuster épico de grandes proporções, um filme tecnicamente irretocável e empolgante, mas ao sacrificar a complexidade poética da obra de Homero para fins lucrativos, como a ausência e as interferências dos Deuses na guerra, além das constantes mudanças na história e no destino dos personagens, o diretor Wolfang Petersen, e o roteirista David Benioff, reduzem uma das maiores mitologias da história a uma fórmula típica hollywoodiana, não conseguindo capturar a verdadeira essência da tragédia grega. E apesar dessas escolhas narrativas, Tróia não é um filme ruim: os efeitos especiais constroem com perfeição a escala colossal das sequencias de ação – a batalha na praia, a queda de Tróia, e o embate visceral entre Aquiles e Heitor -, a “fotografia solar” e imponente captura bem a ambientação da época, resultando em um espetáculo épico incrível. E assistir a versão do diretor, que se mostra mais violenta, visceral, e que confere uma profundidade maior para a trama, Tróia acaba se tornando um dos grandes épicos do cinema moderno, independente se você relevar as alterações em relação a obra de Homero. 






TRÓIA


Ano: 2004

Direção: Wolfang Petersen

Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Duração: 163 min (versão de cinema) | 196 min (versão do diretor)

Elenco: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Brendan Gleeson,

Diane Krueguer, Brian Cox, Sean Bean, Peter O’Toole, Rose Byrne,

Saffron Burrows, e Garett Hedlund.



★★★★ ½  9,5



Disponível na HBO MAX

Versão do CINEMA




Disponível no PRIME VIDEO

   Versão do CINEMA  | Versão do DIRETOR






| TRAILER |







| A LUTA ENTRE AQUILES E HEITOR |







| CENA DA BATALHA NA PRAIA DE TROIA |






| PARIS E MENELAU LUTAM POR HELENA |






| O CAVALO DE MADEIRA E A INVASÃO À TRÓIA |


















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