CRÍTICA | CONTATO
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 16 de mai.
- 7 min de leitura

A cena inicial de Contato pode parecer somente uma sequência de lindas imagens do universo, mas o contexto é muito maior. À medida que a gente vai se afastando da Terra, vamos vendo os planetas do sistema solar, nebulosas, e outras estrelas, ao mesmo que ouvimos transmissões de áudios de TV/rádios de fatos históricos em ordem decrescente, até que saímos da nossa galáxia e se deparamos com a imensidão do espaço, e um silencio total até chegarmos nos limites do universo observável – pelo menos é o que parece ser -. As distâncias entre os cosmos no universo são maiores do que a gente pode compreender, e de acordo com a teoria da relatividade, quando olhamos para as estrelas, ou qualquer objeto no espaço, estamos vendo o passado dela, já que a luz desse objeto pode levar milhares de anos para chegar até nós, a depender da sua distância (a estrela pode nem existir mais, mas o seu brilho ainda está viajando até nós). Se existisse uma civilização em outro planeta há uns 100 milhões de anos luz de distância e ela apontasse um telescópio para a Terra, nesse exato momento, esses seres estariam vendo os dinossauros vagando pela Terra. E é basicamente isso que essa sequência de abertura mostra: quando se afastamos da Terra, estamos voltando para o passado, e a cada transmissão de áudio representa uma certa distância de algum objeto do universo.
Carl Sagan foi um cientista, astrônomo, escritor, entre outras qualificações, que lançou dezenas de obras científicas e de ficção, e uma delas serviu de inspiração para o filme em questão. A obra literária Contato foi publicada em 1985 – mas Sagan havia escrito ainda nos anos 70 -, e somente em 1997 que seu icônico livro foi adaptado para os cinemas, no filme homônimo de Robert Zemeckis, e estrelado por Jodie Foster, Matthew McConaughey, Tom Skerritt, William Fichtner, James Woods, Angela Bassett e David Morse. Contato utiliza uma abordagem mais realista e diferente sobre o primeiro contato da civilização humana com extraterrestres, misturando ciência, religião, filosofia, e um desfecho que pode frustrar os mais entusiastas com seres alienígenas. Na trama, a dra. Eleanor Arrow (Jodie Foster) trabalha em um observatório no Novo México com sua equipe, quando eles capturam uma transmissão vinda da constelação de Lyra, mais precisamente perto da estrela Vega, que na verdade, é uma mensagem explicando como construir uma máquina que permite contato com esses seres que vivem na constelação de Lyra.

Assistir Contato é uma experiência incrível e fora do comum, é um filme que aborda ciência e religião sem parecer piegas, além de abordar temas sobre universo da forma mais simples possível de se entender. A história em si já chama a atenção – o primeiro contato com uma civilização extraterrestre -, e apesar do roteiro ter seus altos e baixos (o ritmo é um pouco lento e o filme é longo demais), tem tantas curiosidades e informações fantásticas que nem parece ser tão longo assim – claro, que se você gosta do tema, a imersão é ainda maior -. O filme de Robert Zemeckis tem uma abordagem mais madura, é mais contemplativo, fugindo das abordagens recorrentes de invasões alienígenas, abdução, e batalhas intergaláticas, apostando mais em um debate filosófico entre a razão e a fé, de como a população reagiria diante a descoberta de que não estamos sozinhos. E enquanto a equipe da dra. Arrow tenta desvendar a mensagem, o mundo entra em um caos político, militar e religioso sobre o destino da humanidade, principalmente quando descobrem que a mensagem são instruções para construir uma máquina que permitirá os humanos a entrarem em contato com esses seres: quem deve ir, uma pessoa que acredita em Deus, ou um cientista cético?
A atuação visceral de Jodie Foster como a dra. Eleanor é o que faz Contato funcionar, principalmente o lado humano que a atriz transmite de sua personagem, uma mulher frágil e sensível, mas brilhante, determinada e pragmática, que também precisa lutar bastante para ter voz e reconhecimento em um ambiente dominado por homens. Fugindo dos clichês de um cientista frio, Foster transmite com facilidade toda a paixão e o entusiasmo pela sua profissão de uma forma que contagia o público, criando uma empatia de imediato. E o roteiro mostra a sua trajetória desde a infância, quando já demonstrava o interesse pela astrofísica, seja em conversas sobre o espaço com seu pai, interpretado por David Morse, ou quando ela buscava transmissões através de um rádio. Jodie Foster foi indicada ao Globo de Ouro pela sua atuação. Já o personagem de Matthew McConaughey, o religioso Palmer, é o contraponto perfeito em relação a personagem de Foster: enquanto ele acredita em Deus e na fé, a dra. Arrow acredita na ciência, e o respeito que ambos têm um pelo outro – mesmo com ideais diferentes – é um dos pontos mais fortes dessa relação. E é essa diferença que faz a química entre os dois funcionar, com diálogos inteligentes e interessantes debates filosóficos. Na época do lançamento, McConaughey estava no início de sua carreira, mas se saiu muito bem ao lado de uma atriz veterana, conferindo um carisma incrível para o personagem.

O elenco ainda conta com Tom Skerrit e James Woods, os antagonistas de Contato – principalmente o personagem de Woods, o burocrático e irritante Assessor da Segurança Nacional dos EUA Michael Kitz -; já Skerritt interpreta o cientista do governo David Drumblin, rival direto da personagem de Jodie Foster. Vale destacar o carismático Kent, personagem de William Fitchner, um cientista cego que trabalha com a dra. Eleanor, e que compartilha a mesma paixão em buscar sinais de vida inteligente pelo universo. A parte técnica também é um dos principais destaques do filme, também recebendo elogios por retratar fielmente o programa de busca por inteligência extraterrestre (SETI). Os efeitos em CGI foram revolucionários na época do lançamento do filme, principalmente a construção da capsula inteira, e na viagem pelo buraco de minhoca que a personagem de Foster faz, criando imagens lindíssimas do universo; inclusive a da sequência de abertura e o desfecho na praia. A trilha sonora de Alan Silvestri (parceria de longa data de Robert Zemeckis) potencializa ainda mais a intensidade das cenas, nada de grandioso ou exagerado, mas sim uma trilha mais intimista e minimalista, captando exatamente a essência da produção. Destaque também para o som metálico e as batidas intensas da mensagem recebida dos seres da estrela Vega, transmitindo uma áurea de mistério.
Toda a sequência final de Contato – a cena da praia e a do julgamento – com certeza vai dividir a opinião de todos, principalmente em relação aos seres da estrela Vega. Sem muitos detalhes (explicarei melhor depois), mas os seres extraterrestes não exatamente como as pessoas esperavam, e muita gente ficou confuso: acabou sendo uma cena mais simples e emocionante, mas ainda marcante, seja pelas informações ou pelo nível técnico dos efeitos especiais. E o final ainda meio que fica em aberto para interpretações: será que realmente a dra. Eleanor Arrow viajou através do universo até a estrela Vega? Ela realmente teve contato direto com os seres dessa constelação? Ou tudo não passou de uma ilusão criada por eles? Tem um detalhe que pode dar uma resposta definitiva. Vale destacar aqui o emocionante testemunho da personagem ao dizer que ela realmente viajou até esses seres e os encontrou.

Contato é um dos maiores clássicos da ficção, uma história cheia de camadas filosóficas e existenciais sobre ciência, fé e religião, conduzida por uma atuação marcante de Jodie Foster. O filme nos mostra que a busca por vida extraterrestre não é somente por tecnologia, mas também por conhecimento, afeto, conexões pessoais, é uma mensagem mais existencial, e as vezes pessoal. O ritmo pode ser um pouco lento, mas os temas que o roteiro aborda – tanto os científicos sobre o universo quanto os filosóficos – são muito interessantes e ainda ajudam a aumentar o nosso conhecimento sobre a nossa existência: “se estivéssemos sozinhos em meio a imensidão do universo, seria um tremendo desperdício de espaço”. No fim, Contato é um filme que continua relevante e atual, não entrega respostas fáceis, faz cada um ter sua própria percepção das coisas.
SOBRE O FINAL DOS ALIENÍGENAS
E O JULGAMENTO DE ELEANOR
Após a viagem da personagem de Jodie Foster através do buraco de minhoca, ela chega em uma praia inusitada, surreal. Lá, ela encontra os seres que entraram em contato com a humanidade, porém, o ser que aparece é o seu pai, personagem de David Morse. Mas e os alienígenas?
Os seres realmente existem, mas a praia é uma simulação criada por eles, uma forma que eles encontraram para que a dra. Arrow não ficasse assustada com o primeiro contato. Os “Veganos” baixaram as memórias e pensamentos da personagem para criar esse ambiente – a praia foi um desenho que ela fez na infância -. E ao invés de aparecer a forma real dos extraterrestres, eles decidiram aparecer na forma do pai dela, não somente para que ela não ficasse chocada com a aparência real dos seres, mas também pelo afeto e a conexão emocional – que seria a linguagem universal de todos os seres do universo -.

E ainda tem mais. O “pai” de Ellie diz que existem outros seres vivendo em diversos lugares do universo, mas que ainda não vamos vê-los por que ainda somos uma espécie muito “jovem”, que precisa evoluir. Sobre a máquina – que na verdade cria um buraco de minhoca -, o ser diz que eles não sabem quem inventou, que os criadores originais foram embora, mas que um dia podem voltar. Essa revelação cria um novo mistério para o filme: quem são os criadores originais dessa máquina? Por que eles criaram e por que foram embora e deixaram?
O julgamento é outro ponto interessante que levanta outras discussões. Ao retornar para a Terra, Eleanor conta toda a experiência que teve na sua viagem, mas para a equipe que ficou na Terra, a cápsula de Ellie apenas caiu na água em cerca de um segundo. O conselho de segurança dos EUA a descredibiliza, dizendo que tudo foi uma farsa, que ela não fez a viagem, que tudo não passou de uma alucinação. E o que piora é que ela não tem nenhuma prova que fez a viagem, e eles questionam por que os seres não a deixaram trazer uma evidência da existência deles e dessa “suposta” viagem. Porém um detalhe confidencial pode provar que Ellie fez a viagem: embora a cápsula tenha apenas caído no mar em questão de um segundo, existem 18 horas de gravação – somente estática -. Como isso aconteceu?

Esse detalhe pode ser uma relação com a teoria da relatividade: Eleanor fez a viagem, que durou 18 horas – desde a viagem pelo buraco de minhoca, até a chegada na praia e o retorno -, porém, para o pessoal que ficou na Terra, se passou apenas um segundo. Segundo a teoria da relatividade, o tempo passa diferente para quem viaja próximo a velocidade luz e para quem está na Terra. Além disso, o tempo também passa diferente em outros lugares do universo.

CONTATO
Ano: 1997
Direção: Robert Zemeckis
Distribuidora: Warner Bros.
Duração: 149 min
Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Tom Skerritt,
]William Fichtner, James Woods, Angela Bassett e David Morse
NOTA: 10
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