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CRÍTICA | PECADOS ÍNTIMOS

Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
20 de set.
4 min de leitura


O subúrbio americano, com suas belas casas, gramados impecáveis e cercas brancas, sempre foi cenário para o cinema abordar as relações humanas e os casamentos da classe média. Em Beleza Americana, Sam Mendes explorou crises existenciais e problemas no casamento de Lester e Carolyn, que aparentavam ter uma relação perfeita. Já o filme em questão, Pecados Íntimos, evita mostrar o clichê dos casamentos perfeitos, trazendo uma abordagem mais real e moderna dos relacionamentos, mostrando como os casamentos podem cair na rotina, mas que não necessariamente precisam ficar presos a isso.


Baseado no romance de Tom Perrotta, Pecados Íntimos recebeu três indicações ao Oscar – roteiro adaptado, atriz (Kate Winslet) e ator coadjuvante (Jack Earle Haley) -, e através de um narrador, conhecemos a história de Sarah (Winslet), uma dona de casa frustrada com a maternidade e o seu casamento, e Brad (Patrick Wilson), um advogado desempregado que vive sob pressão da sua esposa Kathy (Jennifer Connelly). Entediados com a rotina que estão vivendo, eles acabam iniciando um intenso caso extraconjugal. Ao mesmo tempo, a simples rotina do bairro onde moram é abalada quando o criminoso sexual recém-saído da prisão, Ronnie (Jackie Earle Haley), volta a morar na região, despertando medo e paranoia nos moradores. Noah Emmerich, Trini Alvarado e Ty Simpkins (antes de despontar com Homem de Ferro 3, Sobrenatural e Jurassic World) também estão no elenco.


O roteiro escrito por Todd Field (que também dirigiu) e Tom Perrotta aborda temas complexos como o falso moralismo, a rotina dos relacionamentos, construindo os protagonistas Sarah e Brad como indivíduos que, apesar de serem bem estruturados na vida, se comportam de forma imatura diante das frustrações da vida e da rotina do casamento. O desenvolvimento dramático de Pecados Íntimos acontece em dois núcleos principais. De um lado, temos o caso extraconjugal de Brad e Sarah, que surge não apenas como uma simples atração, mas também como um refúgio para os seus problemas mais pessoais, seja na rotina do casamento fruto da negligência de seus parceiros, ou nas crises existenciais da maternidade. O que começa como uma simples rotina de ir ao clube da piscina publica para se encontrarem, se torna uma relação extraconjugal tórrida. Do outro lado, o roteiro introduz o personagem Ronnie, um condenado por importunação sexual à menores que foi solto e volta a morar no bairro com a sua mãe protetora May (Phyllis Somerville), situação que acaba entrando em um conflito externo com a comunidade, liderada pelo ex-policial Ronnie (Noah Emmerich).



E a sacada do roteiro é justamente em juntar esses dois conflitos principais, que acabam se cruzando em um desfecho impactante, de certa forma. Esse conflito explode em momentos dramáticos intensos, como a desconfortante sequência da piscina pública, o jantar na casa de Brad e sua esposa, além de outras situações ainda mais impactantes. Apesar dessa carga dramática intensa, o roteiro tem alguns deslizes. O maior problema é o ritmo da segunda metade, que é mais devagar e contemplativo, o que pode fazer com que aqueles que procuram um drama mais dinâmico desanimem. O desfecho também pode soar um pouco questionável: se o filme mostra o casal Brad e Sarah se entregando aos seus desejos para superar as frustrações - o que acaba sendo algo “imoral” na visão dos mais conservadores -, o final pode soar um pouco moralista para quem esperava algo mais visceral e “libertador”.


Se a trama tem seus altos e baixos, é a atuação de todo o elenco que torna Pecados Íntimos ainda mais intenso. Os problemas e as situações são simples, mas muito próximas da realidade, nada de tão extraordinário. Kate Winslet entrega uma Sarah bastante complexa, equilibrando perfeitamente a apatia de uma mulher presa na rotina do seu casamento com a vivacidade de alguém que redescobriu a paixão e o desejo; e claro, com aquele olhar que já transmite todas as nuances de sua personagem. Patrick Wilson (bem antes de ficar famoso pela franquia Invocação do Mal) foge do clichê do galã, construindo um Brad vulnerável e dependente de sua esposa, Kathy (Jennifer Connelly). E da mesma forma que Sarah, Brad também se sente mais vivo ao se entregar a esse caso tórrido de paixão. Já a personagem de Connelly, apesar de aparecer muito pouco, constrói uma personagem fria e controladora, incapaz de ver que seu casamento está desmoronando, e essa personalidade se intensifica quando ela suspeita da traição do seu marido.



Em contrapartida, a subtrama de Ronnie (Jack Earle Haley) parece estar deslocada da trama principal, mas pelo contrário, ela dita muitos rumos do roteiro e cria alguns dos momentos mais tensos e desconfortáveis do longa. A construção do personagem é bem interessante: apesar de humanizar o personagem em alguns momentos – a típica redenção do criminoso -, o roteiro jamais suaviza o seus crimes deploráveis, o que deixa a trama e os acontecimentos ainda mais intensos. Ainda nesse núcleo, Noah Emmerich interpreta o ex-policial Larry, entregando uma atuação crua de um homem obcecado pela vingança contra Ronnie, o que resulta em situações realmente incomodas.


Em última análise, embora Pecados Íntimos tenha um ritmo instável, e talvez não tenha aquele final surpreendente que marcou outras produções do gênero lançadas na mesma época, Todd Field entrega um filme envolvente, um drama intenso cheio de reviravoltas surpreendentes e atuações incríveis do seu elenco principal. É um filme sobre relacionamentos e casamentos, de um ponto de vista mais íntimo de cada personagem, de cada história, e como essas atitudes inconsequentes – ou não, dependendo do seu ponto de vista – dos personagens de Kate Winslet e Patrick Wilson, afetam todos ao redor.






PECADOS ÍNTIMOS


Ano: 2006

Direção: Todd Field

Distribuidora: PlayArte Pictures

Duração: 121 min

Elenco: Kate Winslet, Jennifer Connelly, Patrick Wilson,

Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Trini Alvarado e Ty Simpkins



★★★★ 9,0



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