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CRÍTICA | FILHOS DA ESPERANÇA

Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
13 de set.
4 min de leitura


Filhos da Esperança, lançado discretamente em 2006 e que completa 20 anos esse ano, é uma das maiores obras-primas do cinema atual, e um fato curioso é que a trama se passa em uma realidade distópica – talvez não tanto assim – no ano de 2027. Dirigido por Alfonso Cuarón, “Children Of Men” é o filme mais grandioso do diretor – e olha que depois Cuarón dirigiu Gravidade -, uma obra que mostrou o pior da humanidade em uma situação de crise, potencializada por uma parte técnica impecável que mexe profundamente com os sentimentos do público; é impossível não se emocionar, especialmente com a cena do conflito em Bexhill, um plano-sequência memorável.


Na trama, o mundo está em guerra, a violência continua crescendo e destruindo cidades, restando apenas a Inglaterra, que ainda não sucumbiu totalmente e está dominada por um regime totalitário. O real motivo por trás desse caos mundial é a infertilidade: não nascem crianças há mais de 18 anos. No meio disso tudo, conhecemos o ex-ativista Theodore (Clive Owen), que é convocado pela sua ex-esposa, Julian (Julianne Moore), para uma missão que pode mudar o futuro da humanidade: conseguir os documentos necessários para levar uma mulher negra e imigrante, Kee (Clare-Hope Ashitey), para fora do país. Porém, tem um detalhe: ela está gravida. O elenco ainda conta com Michael Cane e Chiwetel Ejiofor.


Filhos da Esperança é um filme impecável e impactante, tudo isso graças a direção primorosa de Alfonso Cuarón, em parceria com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Cuarón não apenas nos conta a história e os acontecimentos desse mundo distópico, mas também transporta o espectador para dentro dele, onde o maior destaque são os planos-sequências – as tomadas longas e sem cortes -, que dita o tom realista e cru da obra. A icônica sequência da fuga de carro é um exemplo disso: a câmera se movendo dentro do veículo, acompanhando um momento de descontração entre os personagens quando, sem aviso nenhum, são atingidos por um ataque chocante e inesperado que muda os rumos da trama.



Essa mesma técnica atinge o seu auge no devastador conflito no campo de refugiados em Bexhill, no terceiro ato. Ao acompanhar o personagem de Clive Owen no meio dos tiroteios, explosões e destruições do lugar – o melhor plano-sequência do filme, e um dos mais intensos do cinema atual -, o filme ganha ares de documentário com um visual imersivo, fazendo o espectador sentir os horrores daquela situação. É nessa sequência que acontece o momento mais emocionante do filme, e provavelmente um dos mais emocionantes do cinema dessa década. A direção de arte e a fotografia são outros destaques do longa, captando perfeitamente todo o espírito melancólico e desesperador daquela realidade. Os tons cinzentos, os verdes opacos e sem vida, potencializam ainda mais o tom sombrio, sem brilho e sem vivacidade da cidade, combinando com os cenários de abandono e destruição, as ruas cobertas de lixo, prédios bombardeados. A sensação é de um lugar que parou no tempo, sem esperança, tomado pela violência e pela opressão do governo.


Essa realidade distópica desoladora ganha um peso dramático e emocional ainda maior com as atuações viscerais de todo o elenco. A começar por Clive Owen e seu desesperançoso Theodore, transitando perfeitamente entre um homem apático e desgastado pela realidade opressora em que vive, e alguém que depois redescobre a sua humanidade ao receber a maior missão da sua vida, um propósito para ter esperanças de que o mundo possa mudar. Seu passado traumático envolve a personagem de Julianne Moore, Julian, que apesar de ter pouco tempo em tela brilha como a líder política e ex-esposa de Theo, responsável por tirá-lo da sua zona de conforto. Já o Jasper de Michael Caine é o personagem mais humano do filme, oferecendo um alívio cômico, um respiro em meio ao caos desse mundo; sua dinâmica descontraída com Theo – em especial a lealdade entre ambos -, trazem os momentos mais leves e divertidos da narrativa.



O elenco de coadjuvantes também é igualmente importante para a trama e para o cenário opressor e político dessa realidade. O Luke de Chiwetel Ejiofor é um líder revolucionário com métodos mais extremistas, um personagem ambíguo e que facilmente se deixa corromper por um ideal maior – ele, junto com Julian, é o responsável para levar Kee para o “barco do amanhã” -. Peter Mullan rouba a cena ao interpretar o excêntrico guarda da fronteira Syd, representando a personificação daquele regime fascista e opressor. No entanto, a verdadeira alma de Filhos da Esperança é personagem de Clare-Hope Ashitey, Kee, uma imigrante negra que está grávida. Sua presença em tela transmite vulnerabilidade e pureza, junto com uma força incrível para enfrentar a realidade caótica em que vive. Kee acaba sendo o futuro do planeta, uma esperança para que a humanidade continue existindo, e quem sabe tornar o mundo um lugar melhor para se viver.


Filhos da Esperança é uma obra atemporal, principalmente pelo seu subtexto político e social. E mesmo que tenha sido lançado há vinte anos, a distopia de Alfonso Cuarón reflete a realidade atual em que vivemos: a crise dos refugiados, as regras mais restritas para cruzar as fronteiras, a xenofobia e o regime autoritário, os conflitos geopolíticos pelo mundo. Além disso, o filme recebeu três indicações ao Oscar em 2007 (Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição), porém, não levou nenhum – o que foi considerado uma injustiça anos depois -. No fim, “Children Of Men” é uma das maiores obras-primas do cinema atual: as intensas cenas de ação, os incríveis e arrebatadores planos-sequências, além da fotografia e da direção de arte que captura bem aquela realidade suja e violenta.

, garantem uma imersão visceral a esse futuro distópico, que agora já não estar mais tão distante assim. O desfecho, ainda que dramático, fecha com chave de ouro a proposta do filme: a esperança pelo futuro da humanidade é o que nos mantém vivos, mesmo no meio dessa realidade devastadora e opressora.





FILHOS DA ESPERANÇA


Ano: 2006

Direção: Alfonso Cuarón

Distribuidora: Universal Pictures

Duração: 109 min

Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Clare-Hope Ashitey,

Michael Cane e Chiwetel Ejiofor.


★★★★★ 10



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