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ESPECIAL | FÚRIA DE TITÃS (1981)

  • Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
    Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
  • 5 de jul.
  • 6 min de leitura


Criaturas mitológicas, Deuses manipuladores, tragédias inevitáveis, honra e destino: a mitologia grega sempre fascinou o público pela sua grandiosidade épica com histórias fantásticas, como a guerra de Tróia, a lenda de Hércules, e o mito de Prometeu. Entre essas lendas está a história de Perseu, um semideus (filho de Zeus) que enfrenta monstros mitológicos para salvar a sua amada, Andrômeda, e que foi adaptada para os cinemas no filme de 1981, Fúria de Titãs – tem também uma refilmagem horrorosa de 2010 -. Dificilmente alguma adaptação cinematográfica de alguma lenda – aqui, no caso, lenda grega – segue fielmente a “história real”, e Fúria de Titãs não foge dessa regra. Embora altere algumas coisas do texto grego original – o que pode fazer com que os fãs mais assíduos não gostarem da adaptação -, o filme dirigido por Desmond Davis é um espetáculo visual inesquecível, que mesmo com os efeitos práticos datados, impressiona pelo primor técnico, e pelo apelo fantástico e nostálgico. Na trama, o ainda bebê Perseu (Harry Hamlim), e sua mãe, são expulsos de sua terra natal e vão parar em uma ilha deserta. Já um homem crescido, Perseu acaba indo parar – com a ajuda dos Deuses – em Joppa, onde acaba se apaixonando por Andromeda (Judi Bowker), porém, para se casar com ela, Perseu precisa viajar pela Grécia antiga e enfrentar criaturas mitológicas lendárias. Maggie Smith, Ursula Andress (a primeira Bond Girl do cinema), e Neil McCarthy também estão no elenco.


Fúria de Titãs não é totalmente fiel a mitologia grega, e mesmo com a sua narrativa simples demais, o filme de Desmond Davis é um dos maiores clássicos de aventura e do cinema fantástico, que se destaca pelo visual fiel e nostálgico a Grécia antiga, e pelos efeitos práticos incríveis do lendário Ray Harryhausen. O problema maior realmente é o roteiro, tudo é previsível e resolvido fácil demais – Perseu está em perigo, e lá vão os Deuses ajudá-lo -, é como se tudo já estivesse planejado (e de fato está, já que a trajetória do herói já foi escrita pelos Deuses), sem muitos desafios ou surpresas, a sensação de perigo é nula. E apesar das mudanças em relação à alguns personagens, Fúria de Titãs capta perfeitamente a essência da mitologia grega, desde os cenários, a personalidade dos personagens, o tom fantástico das criaturas mitológicas, seguindo a estrutura de uma fábula clássica, a jornada do herói. Mas o maior destaque são os efeitos práticos criados por Ray Harryhausen, principalmente pela sua técnica impecável chamada “Dynamation", junto com o stop-motion típico da época. O trabalho de animação quadro a quadro que dá vida aos monstros do filme, apesar de parecerem datados e estranhos para os dias atuais, se tornaram o maior charme e a marca registrada da produção, ainda mais em uma época em que os efeitos especiais estavam começando a surgir – em especial a Industrial Light & Magic -; quatro anos antes, em 1977, estreava Star Wars: Uma Nova Esperança.



Se o ponto forte de Fúria de Titãs é a parte técnica, o mesmo não se pode dizer sobre os personagens e as atuações – pelo menos, não dos Deuses do Olimpo -. O núcleo divino está ótimo com suas interpretações caricatas e teatrais, representando bem as divindades e suas personalidades: o Zeus do lendário Laurence Olivier demonstra bem a autoridade de ser o mais importante dos Deuses, Maggie Smith transmite com perfeição a fúria e o rancor da deusa Tétis, enquanto Hera (Claire Bloom) e Afrodite (Ursula Andress) conferem o charme e o estilo clássico dos deuses do Olimpo. O ponto negativo está com o núcleo humano, principalmente o casal protagonista. Harry Hamlin entrega um Perseu apático, inexpressivo, e sem carisma nenhum, além de parecer todo atrapalhado nas cenas de luta, não convencendo como um herói lendário da mitologia grega. Já a atriz Judi Bowker, a bela Andromeda, não convence como uma “donzela em perigo”, que também não demonstra carisma nenhum, entregando uma atuação inexpressiva e não faz nada além de sofrer, culpa, principalmente, do roteiro que não desenvolve a personagem e o seu arco dramático. Vale destacar o carismático Ammon, interpretado por Burgess Meredith, o eterno treinador de Rocky Balboa no filme de 1976, que confere um “calor humano” para a história, além de ser um alivio cômico muito bem-vindo, um contraponto com a personalidade inexpressiva do Perseu de Hamlin.


 

AS MUDANÇAS EM RELAÇÃO A MITOLOGIA GREGA


Embora a narrativa de Fúria de Titãs mantenha a estrutura da jornada de Perseu – o exílio, a paixão por Andromeda, as criaturas que ele precisa enfrentar para salvá-la -, o roteiro escrito por Beverly Cross fez diversas alterações, principalmente em relação aos personagens.




  • KRAKEN E CALIBOS


No filme, Kraken é um monstro marinho que está sob os cuidados de Poseidon, que o usa para punir os mortais, um castigo divino. Mas o Kraken é uma invenção do roteiro, uma substituição na verdade: o monstro original da mitologia de Perseu se chama Cetus, uma serpente marinha, mas o filme alterou para o Kraken – e também mudou sua forma – para soar algo mais ameaçador e imponente. Apesar dessa alteração, o filme manteve a função mitológica da criatura, que está sob os cuidados de Poseidon. Na verdade, o Kraken nem pertence a mitologia grega, e sim à mitologia nórdica.


Já Calibos é um personagem que não existe na mitologia grega, criado especificamente para ter um antagonista na história, um inimigo direto para Perseu. O pretendente de Andromeda se chama Fineu, e apesar da motivação ser parecida – a vingança do por ter sido rejeitado por Andromeda -, ele foi transformado em um monstro pelos Deuses, ou seja: Calibos e a sua transformação em uma criatura com garras, caudas, e que vive em um pântano, foi inserida na trama especificamente para criar um conflito.


 

  • A DEUSA TÉTIS


No filme, Tétis (Maggie Smith) é uma das principais deusas do Olimpo, e que rivaliza diretamente com Zeus para proteger o seu filho, Calibos. Na mitologia, Tétis é uma “ninfa do mar”, e o seu filho é o lendário guerreiro e herói da guerra de Tróia, Aquiles.


Ainda na história mitológica, a rainha Cassiopeia comete o pecado da vaidade ao dizer que a sua filha, Andromeda, é mais bela que as Nereidas (divindades que habitavam o mar Mediterrâneo e que acompanhavam Poseidon). Isso causou a fúria do Deus do mar, que enviou Cetus para inundar Etiópia, exigindo o sacrifício de Andromeda na rocha. No filme, o pecado de Cassiopeia é mantido, porém, quem se ofendeu é a deusa Tetis, obrigando Poseidon a enviar o Kraken para destruir Joppa, além de pedir o sacrifício de Andromeda; o que na verdade foi uma desculpa perfeita para Tetis se vingar de Andromeda, já que ela rejeitou o seu filho, Calibos.


 


  • A CORUJA BUBO


A carismática coruja de metal Bubo não existe na mitologia grega, ela foi criada para o filme. Atena não a enviou para ajudar Perseu, somente forneceu o escudo.

 


  • PÉGASO E A MEDUSA


A origem de Pegaso e toda a sua função na história do filme, é totalmente diferente a da mitologia grega. Em Fúria de Titãs, Perseu captura o “cavalo alado” e o usa para servir de montaria na sua jornada. Ou seja, Pegaso já aparece desde o início da trama. Já na mitologia grega, o herói nunca usou Pegaso para voar, e o cavalo surgiu apenas após a luta contra a Medusa, após Perseu cortar a sua cabeça – Pegaso nasceu do sangue de Medusa -. Na mitologia, quem capturou e montou no cavalo foi Belerefonte, que queria usá-lo para combater e derrotar o monstro Quimera. Ou seja, o roteiro do filme praticamente usou a história de Belerefonte para o arco de Perseu.


A mudança em relação a Medusa é, basicamente, no visual: no filme, ela tem o corpo híbrido – metade humana e metade serpente -, e usa um arco e flecha, sendo que na mitologia ela tinha uma aparência humana, e somente os cabelos eram de serpentes, além do seu olhar que petrifica. Essa mudança foi para que a Medusa ficasse mais ameaçadora no filme. O combate entre Perseu e Medusa também foi alterado: na mitologia, Perseu corta a cabeça dela quanto está dormindo, e no filme, para criar uma sequência de suspense e tensão, Perseu enfrenta a Medusa, que usa o arco e flecha enquanto ele se protege com o escudo.

 


Fúria de Titãs pode não ter uma narrativa mais elaborada, ou atuações expressivas, e falha em não dar uma personalidade marcante ao herói Perseu, mas o filme de Desmond Davis é um clássico da fantasia e do cinema fantástico, puramente nostálgico que captura a essência da mitologia grega, mesmo com as suas diversas mudanças na trama e nos personagens. E com os efeitos práticos do stop-motion de Ray Harryhausen, que dão vida as criaturas mitológicas que marcaram uma geração - o arbutre, o Pégaso, o Cerberus, a Medusa, o Kraken - Clash Of The Titans é uma aventura nostálgica imperdível, um clássico imperfeito, mas repleto de alma e vida. Se você procura a aventura clássica de herói, toda a magia e fantasia de um clássico épico, Fúria de Titãs é o filme certo, mas para isso você terá que relevar os efeitos datados para os dias de hoje. Pelo menos, é muito melhor do que o remake de 2010, que é vazio e sem alma.






FÚRIA DE TITÃS


Ano: 1981

Diretor: Desmond Davis

Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer

Duração: 111 min

Elenco: Harry Hamlim, Judi Bowker, Maggie Smith, Lawrence Oliver,

Burgess Meredith, Ursula Andress e Neil McCarthy



★★★★ 8,0


Disponível no













TRAILER





PERSEU E O CACHORRO DE DUAS CABEÇAS





SEQUENCIA DA LUTA DE PERSEU CONTRA A MEDUSA





PERSEU ENFRENTA O KRAKEN

















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