CRÍTICA | O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 14 de fev.
- 4 min de leitura

Paixão, obsessão, loucura, ciúmes, vingança são temas clássicos dos filmes de romance, aqueles mais emocionais e dramáticos – principalmente os romances de época -, com atuações exageradas e muitas vezes com um desfecho trágico. Poderia citar uma longa lista desses romances, mas vamos falar sobre a nova adaptação homônima de O Morro dos Ventos Uivantes, que estreou na semana do dia dos namorados (a oficial, em fevereiro). A obra literária Whutering Heights, de Emily Brontë, lançada em 1847, já teve mais de dez adaptações para o cinema - o número chega a triplicar se contar as feitas para a TV -, mas as mais famosas são as adaptações de 1939 (considerado o clássico absoluto), e a versão de 1992 com Ralph Fiennes e Juliette Binoche; ainda tem uma de 2011 que foi mais fiel ao clássico literário, mas não teve tanto reconhecimento.
Com exceção do filme de 2011, as outras versões sempre foram criticadas pelas mudanças em relação ao livro, principalmente por escolherem atores brancos para interpretar Heatcliff – na obra de Brontë, o personagem é descrito como tendo a pela mais escura, e a própria autora já disse em entrevistas que ele não é um homem branco europeu -. Agora, com a versão de 2026 dirigida por Emerald Fennell e estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi, o novo O Morro dos Ventos Uivantes estreia envolto das mesmas polêmicas, mas agora o elemento mais criticado é a abordagem provocativa e sexual – se antes, Heatcliff e Catherine tinham uma ligação espiritual, agora eles têm uma ligação completamente carnal -. A trama segue pelo mesmo caminho da obra clássica, o jovem Heatcliff (Elordi) vai morar com a família de Catherine (Robbie) e eles acabam criando uma ligação afetiva. Já adultos, Catherine conhece o lorde Edgar (Shazad Latif), com quem acaba se casando, fazendo com que Heatcliff fuja. Anos depois, ele volta rico e motivado a se vingar de sua amada.
A maioria das adaptações cinematográficas de O Morro dos Ventos Uivantes pega apenas a primeira parte do livro – o romance dos jovens Heatcliff e Catherine -, cortando toda a segunda parte dos filhos deles; só a versão de 1992 que adapta as duas partes, considerada a mais fiel da obra. Mas o filme de 2026 foi ainda mais ousado ao transformar a clássica obra que focava em um romance gótico e espiritual, para um suspense focado na tensão sexual, no erotismo, um romance mais carnal, fetichista, e muito mais obsessivo, mudando toda a essência da história. A trama é inconstante, funciona em diversos momentos, mas as mudanças narrativas – os cortes e a condensação de alguns núcleos – acabam não justificando as atitudes controversas dos protagonistas; e essa pegada mais sexual, como se masturbar nas rochas e os fetiches sadomasoquistas, não combina com a proposta original da obra de Emily Brontë.

Por outro lado, a parte técnica do novo O Morro dos Ventos Uivantes é maior acerto. A diretora Emerald Fennell (de Saltburn e Bela Vingança) faz uma releitura interessante ao misturar o visual clássico de época com o ritmo da cultura contemporânea, ao inserir a trilha sonora pop/eletrônica da cantora Charli XCX, que dá um tom mais moderno, intenso, e por incrível que pareça, combinou perfeitamente com a proposta ousada do filme. A fotografia também funciona, as belas paisagens das charnecas inglesas, cenários típicos da literatura britânica, confere o estilo gótico e rústico, dando a sensação de isolamento e melancolia que caem bem com os caminhos sombrios que o filme segue.
Embora a escolha de Margot Robbie e, principalmente, de Jacob Elordi, para interpretar os amantes Catherine e Heatcliff seja controversa, a atuação de ambos é marcante e imponente. Enquanto Elordi entrega uma interpretação convincente da paixão obsessiva e o jeito ameaçador (e sedutor) de Heatcliff – que funciona melhor na segunda parte, quando o personagem volta para se vingar -, Margot Robbie entrega uma Catherine visceral e egoísta, difícil de se simpatizar. A química entre o casal funciona, ambos são emocionalmente cruéis, e conseguem transmitir toda a obsessão e a loucura que seus personagens têm um pelo outro, mostrando uma relação realmente tóxica e destrutiva, exatamente a proposta que a diretora queria, baseada em atração carnal. Porém, essa proposta mais superficial foge do idealismo romântico e espiritual da obra de Emily Brontë. No filme, os personagens são bem diferentes em relação ao livro. Heatcliff é descrito como um homem de pele escura, o que enfatiza o racismo estrutural da época, motivo da sua rejeição social, e com a escalação de Jacob Elordi, a crítica ao racismo é anulada. Já Catherine seria uma mulher mais rústica, diferente da aparência limpa e dos cabelos loiros de Margot Robbie.
Além dessa mudança de tom em relação a obra literária e dos protagonistas, o novo O Morro dos Ventos Uivantes também tem significativas alterações na trama. Assim como na maioria das adaptações, a segunda metade da obra – que foca nos filhos de Catherine e Heatcliff, e a redenção do personagem – foi completamente cortada, mas até aí, nada de novo. Além disso, o filme tirou o irmão de Catherine da trama, inserindo apenas o pai dela, que acabou assumindo o papel de antagonista do irmão. Sim, no livro quem humilha Heatcliff é o irmão, e não pai.

No mais, a nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes é ousada e provocante, fugindo da abordagem mais romântica da obra original para uma abordagem mais erótica, que é potencializada pela excelente química de Margot Robbie e Jacob Elordi, mas no geral, acaba se tornando superficial em comparação ao livro, esvaziando o peso dramático e toda a sua essência. A versão de Emerald Fennell é uma releitura autoral, provocativa e irreverente – exatamente o estilo da diretora, visto em seus trabalhos anteriores (Saltburn e Bela Vingança) – priorizando o choque, impacto visual, e um apelo mais sexual. Os fãs mais assíduos podem não aprovar essa atualização moderna e erótica, que se distancia da verdadeira essência da obra de Emily Brontë, mas para quem gosta de uma abordagem mais moderna e sensual, o novo O Morro dos Ventos Uivantes é uma experiência visualmente impecável e ousada. Particularmente, gostei mais da segunda opção, que combinou bastante com a proposta da diretora, mas o resultado final ainda é irregular, valendo mais pela estética visual, e a química intensa de Margot Robbie e Jacob Elordi.

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
Ano: 2026
Direção: Emerald Ferrel
Distribuidora: Warner Bros. Pictures
Duração: 136 min
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Shazad Latif,
Alisson Oliver, Hong Chau
★★★ ½ 7,5
Disponível na














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