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CRÍTICA | LEVITICUS

  • Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
    Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 5 dias



Existem dois trechos da Bíblia, Levítico 18:22 e Levítico 20:13, que condenam a relação homossexual, afirmando que "se um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram abominação; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles". O filme em questão, “Leviticus” – que ainda não tem previsão de lançamento no Brasil –, pega essa premissa bíblica e utiliza o sobrenatural para fazer uma metáfora sobre a homofobia estrutural e as terapias de conversão, a famosa “cura gay”. Dirigido por Adrian Chiarella, o longa foi muito bem recebido nos festivais de cinema pelo mundo, consolidando-se como um excelente terror psicológico com toques de romance. Mais do que um filme de terror, a obra consegue ser profundamente bonita ao abordar a sexualidade com uma sensibilidade tocante. E é essa dualidade que dita o ritmo da trama, onde acompanhamos dois jovens, Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen), que vivem em uma comunidade religiosa e conservadora e mantêm uma relação afetiva escondida de suas famílias. Após serem descobertos, eles passam por um violento ritual de repressão e começam a ser perseguidos por uma entidade maligna capaz de assumir a forma de quem eles mais amam - um ao outro.


"Leviticus” é uma das melhores surpresas do ano, uma obra que tem muito mais a dizer do que simplesmente assustar, abordando tanto sobre a homofobia internalizada quanto sobre a ameaça sobrenatural que espreita os protagonistas. Chiarella eleva o nível do projeto ao inserir o romance em uma atmosfera de perigo constante, onde cenas gráficas e de violência física aumentam a intensidade da história, traduzindo visualmente o abuso psicológico pelo qual Naim e Ryan passam. O longa começa como um romance típico de adolescentes que demonstram maturidade precoce por viverem em um ambiente hostil, sendo forçados a esconder os encontros e os sentimentos que nutrem um pelo outro. A transição para o horror é formidável, sem enrolação e de maneira perturbadora: os dois começam a temer um ao outro, sem saber se o que veem é real ou se é a entidade assumindo a forma de cada um deles.



Essa incerteza angustiante é potencializada pela primorosa fotografia, que combina perfeitamente com essa proposta. A região rural australiana dá aquele toque de paz e isolamento que eles precisam - um cenário calmo para viverem seus momentos sozinhos -, enquanto a paleta de cores mais frias, que foge dos tons vibrantes, evoca uma melancolia constante e a sensação de abandono, como se aquela cidadezinha estivesse esquecida no tempo. Além disso, a trilha sonora de Jed Kurzel — recheada de sintetizadores dramáticos e também melancólicos — funciona perfeitamente nos momentos em que estão sozinhos, conferindo um tom romântico e íntimo às cenas, ao mesmo tempo em que evoca o peso de viver esse amor com medo e insegurança.


Mas o que realmente faz o filme funcionar e alcançar o apelo emocional necessário é a química inquestionável entre Joe Bird e Stacey Clausen. Eles transformam os momentos em que estão juntos no verdadeiro coração da obra, que ganha tons de romance, deixando a desconfiança mútua ainda mais dramática e angustiante para o público. Bird — que já havia se destacado no terror “Fale Comigo” — entrega um Naim profundamente melancólico, sufocado pela alienação religiosa e pelo sentimento genuíno que tem por Ryan. Já Clausen equilibra perfeitamente a vulnerabilidade e a insegurança de seu personagem. O elenco de coadjuvantes extrai a repulsa do espectador através de suas atitudes intolerantes, com grande destaque para Mia Wasikowska (a eterna protagonista de “Alice no País das Maravilhas”). Afastando-se de papéis inocentes, ela entrega uma atuação precisa como uma mãe fria, enigmática e consumida pelo fanatismo daquela sociedade.



Minha única ressalva fica por conta de algumas subtramas interessantes que poderiam ter sido mais exploradas, assim como personagens secundários que mereciam um desenvolvimento melhor no terço final. No entanto, esses pequenos problemas não influenciam o resultado final de “Leviticus”: com uma narrativa marcante que transforma o amor em um verdadeiro ato de sobrevivência, aliado a incrível química entre Joey Bird e Stacey Clausen, esse sentimento genuíno que um sente pelo outro potencializa o tom dramático da trama e o sofrimento do conflito que são forçados a enfrentar. Afinal, imagine o horror de não poder confiar ou abraçar a pessoa que você mais ama porque ela pode, na verdade, ser o monstro que quer te destruir? No fim, consolidando uma aprovação de quase 95% dos críticos internacionais, o filme se estabelece como um dos melhores e mais devastadores terrores psicológicos do ano. É uma obra bem estruturada, poderosa e que certamente vai fazer o público debater por muito tempo após o fim da sessão.






LEVITICUS


Ano: 2026

Direção: Adrian Chiarella

Distribuidora: Neon

Duração: 88 min

Elenco: Joe Bird, Stacey Clausen, e Mia Wasikowska



★★★★★ 9,5



Leviticus ainda não estreou nos cinemas brasileiros, e em nenhum serviço de streaming.
















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