CRÍTICA | HOKUM - O PESADELO DA BRUXA
- Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
- 24 de mai.
- 3 min de leitura

Existem dois tipos básicos de filmes de terror: aqueles mais “comerciais” – a franquia Invocação do Mal é o melhor exemplo -, cheia de clichês típicos do gênero que entregam a trama e o desfecho “de bandeja” para o público, e aqueles filmes mais “cults”, que geralmente seguem para um terror mais psicológico, com tramas complexas que fazem o espectador pensar sem entregar respostas fáceis. O novo filme do diretor irlandês Damian McCarthy, Hokum – O Pesadelo da Bruxa, segue por esse caminho mais cult. Seguindo os passos do seu filme anterior, Oddity (de 2024), o terror aborda temas como trauma, isolamento, sentimento de culpa – típicos de um terror psicológico -, em uma intrigante trama sobrenatural que mistura misticismo e lendas do folclore irlandês. Na trama, o escritor de livros de terror Ohm Bauman (Adam Scott) decide se hospedar em uma pousada no interior da Irlanda para jogar as cinzas de seus pais na floresta que cerca o local – ao longo da trama é explicado do porquê ele decide fazer isso -. Na pousada, Ohm descobre que um dos quartos é amaldiçoado por uma entidade, ao mesmo tempo que uma funcionária desaparece. Florence Ordesh, Austin Amelio, David Wilmot e Peter Coonan também estão no elenco.
Ainda que tenha alguns clichês do gênero – muito poucos, e são mais os básicos -, Hokum: O Pesadelo da Bruxa foge dos sustos fáceis recorrentes (só tem uns dois), e entrega um filme que foca mais no suspense e na ambientação sinistra da pousada para criar o clima de terror. A ambientação é o maior acerto de Hokum, que acaba funcionando como um personagem, ditando o suspense e os rumos da trama, seja por estar isolada em uma floresta, ou pela arquitetura gótica, os corredores estreitos e com pouca luminosidade, o porão sinistro, a suíte 2014, todos esses elementos influenciam diretamente na trama, transformando a pousada em um labirinto cheio de mistérios. E um detalhe muito interessante que vale destacar é a forma que o diretor usa o som para deixar tudo ainda mais assustador: o barulho do elevador, o ranger das portas e das paredes, dos sinos, até a TV, criando uma sensação de desconforto e claustrofobia de que algo de ruim vai acontecer. Ainda, Damian McCarthy consegue criar momentos tensos com sequências bem-produzidas e aterrorizantes, principalmente nas cenas do porão e da suíte 204, quando a tal “bruxa” do título vai surgindo da escuridão, que se intensifica com a ambientação sinistra da pousada.

A trama de Hokum tem seus altos e baixos, o desenvolvimento é um pouco lento, mas os mistérios da narrativa são envolventes, bem construídos, e McCarthy – que também escreveu o roteiro - acerta quando segue para o lado mais psicológico, especialmente com o personagem de Adam Scott. E o interessante é que praticamente nenhum personagem é tão bonzinho assim. O centro da narrativa é Ohm, um escritor amargurado e arrogante que vai até a pousada para jogar as cinzas de seus pais na floresta (o filme explica isso, e tem a ver com a misteriosa suíte 204). Ohm tem um trauma de infância – um clichê típico do gênero -, e claro que o roteiro vai se sustentar nisso, abordando temas como perda, o luto mal resolvido, a depressão, além de usar diversas metáforas referentes ao livro que ele está escrevendo, e também relações com as lendas do folclore da região, da tal “bruxa” inclusive. E ainda tem a subtrama do desaparecimento de uma das funcionárias da pousada, Fiona, interpretada pela atriz irlandesa Florence Ordesh.

A palavra Hokum do título do filme não é simplesmente algum nome aleatório, ela tem um significado e está diretamente relacionado com a trama e o seu desenvolvimento. Sem muitos spoilers, Hokum é um termo da língua inglesa relacionado a mentiras, histórias inventadas para manipular o público, onde McCarthy usa esse termo em diversos pontos da trama, seja no livro que Ohm está escrevendo – ele não consegue achar um desfecho -, ou em relação ao seu trauma, até no desfecho ambíguo que brinca com o público. No fim, Hokum – O Pesadelo da Bruxa acaba sendo mais um filme sobre a maldade do ser humano e os traumas e lutos que precisamos enfrentar, do que necessariamente uma trama sobrenatural, ela está lá, mas funciona mais como complemento. A ambientação assustadora, os cenários rústicos da pousada, os ruídos das paredes e das portas, tudo é eficiente na imersão, na construção do suspense e mistério que envolve o local, e principalmente a tal suíte 204. Damian McCarthy mostra que, mesmo que as lendas do folclore da região possam ser mentiras, ou invenções, os monstros da nossa mente (traumas e luto) também podem ser assustadores e reais, que precisamos enfrentá-los para seguir adiante.

HOKUM - O PESADELO DA BRUXA
Ano: 2026
Direção: Damien McCarthy
Distribuidora: Neon/Diamonds Pictures
Duração: 108 min
Elenco: Adam Scott, Florence Ordesh, Austin Amelio,
David Wilmot e Peter Coonan
★★★★ 8,0








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