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CRÍTICA | A ODISSEIA (2026)

  • Foto do escritor: Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
    Paulo Ricardo Cabreira Sobrinho
  • 17 de jul.
  • 6 min de leitura


A Ilíada e A Odisseia são consideradas duas das maiores obras da literatura mundial: a primeira, narra a famosa guerra de Tróia, culminando na queda da cidade, introduzindo Aquiles, Helena, e o cavalo de madeira, enquanto A Odisseia narra o retorno de Odisseu para sua casa em Ítaca após vencer a guerra em Tróia, enfrentando criaturas mitológicas e a fúria dos Deuses. Existem algumas adaptações para o cinema e para a TV (principalmente para a TV) dessas obras escritas pelo poeta/autor grego Homero, mas a adaptação mais conhecida é Tróia, de 2004 e estrelada por Brad Pitt, que é baseada em A Ilíada. O filme de Wolfang Petersen mantém grande parte da história original, mas altera o destino de alguns personagens, o que pode confundir quem for assistir a adaptação de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan, que funciona como uma continuação dos eventos de A Ilíada.


A Odisseia já causou polêmica antes mesmo de sua estreia, principalmente em relação a escalação de alguns atores para interpretar os personagens mitológicos, como Elliot Page, Lupita Nyong’o, e sobrou até para Zendaya. Mas polêmicas a parte, com “The Odissey” Nolan entrega um espetáculo visual de proporções grandiosas, inteiramente filmado em câmeras no formato IMAX 70mm – as salas que suportam esse formato não existem no Brasil, infelizmente -, uma aventura épica que impressiona pelo aspecto técnico primoroso, aquele tipo de filme que precisa ser visto no cinema. A trama se divide em duas partes: acompanhamos o retorno épico de Odisseu (Matt Damon) para a sua cidade natal, Ítaca, enquanto sua esposa, Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland), precisam manter a cidade de Ítaca a salvo de forasteiros que a pressionam para que se case novamente, já que Odisseu ainda não retornou. Charlize Theron, Robert Pattinson, Samantha Morton, e Elliot Page também estão no elenco.


A Odisseia é um dos maiores filmes do ano até agora, um espetáculo épico que funciona mais na parte técnica e na fidelidade de Nolan para transpor a obra de Homero para o cinema do que as atuações como um todo. Filmado inteiramente com câmeras IMAX 70mm, e em cenários – a maioria – reais, o longa é visualmente impressionante, usando mais efeitos práticos do que os de CGI, oferecendo uma imersão maior e mais envolvente na história. As sequências no mar ganham um escala grandiosa, as cenas na ilha de Calipso transmitem perfeitamente a sensação de isolamento (por mais que sejam poucas cenas), e quando Odisseu e seus soldados ficam presos na caverna com o gigante ciclope Polifemo, junto com a sequência da feiticeira Circe (Samantha Morton), e a do “inferno”, o cinema de Nolan se aproxima muito do horror, com uma atmosfera sinistra e sem esperança, impulsionada pela fotografia de Hoyte van Hoytema (que trabalha com Nolan desde Interestelar), que usa paleta de cores mais cruas e realistas. Somado a isso tudo, ainda tem os efeitos práticos – que o diretor sempre priorizou em seus filmes -, desde locações reais, as cenas de tempestades filmadas em um tanque de água, maquetes, o diretor até alugou o navio viking Draken Harald Hårfagre. Sim, isso mesmo, a maioria das cenas do navio em alto mar são em um navio real, tornando o filme ainda mais grandioso.



O roteiro, também escrito por Christopher Nolan, não é apenas uma aventura de fantasia (a jornada de Odisseu de volta para sua terra, enfrentando criaturas mitológicas), mas principalmente um drama psicológico – o estresse pós-traumático e a desintegração mental de um sobrevivente de guerra -. Assim, a viagem de longos dez anos acaba se tornando um tipo de “purgatório psicológico”, um sentimento de culpa que o personagem acaba criando, tornando a jornada mais real e crua. Porém, antes de iniciar, de fato, essa epopeia de Odisseu, a história começa ainda em Ítaca, mostrando Penelope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) lutando para defender a sua terra contra os invasores, principalmente de Antinous (Robert Pattinson). E quando a aventura épica em si começa, os elementos fantásticos entram em cena: Odisseu e seus guerreiros enfrentam o gigante Ciclope (filho de Poseidon) em uma caverna claustrofóbica – uma das melhores sequências do longa -, a criatura Scylla, que sofreu uma leve modificação, os Lestrigões, a feiticeira Circe, o canto das sereias (pena que elas não aparecem), mares revoltados e redemoinhos, em sequências de ação bem-produzidas e intensas. Mas todo épico tem suas falhas, e em A Odisseia é o ritmo da narrativa o maior problema. Os cortes repentinos para as cenas em Ítaca durante a jornada de Odisseu, acabam cortando o ritmo e a tensão da aventura, além de a história ser um pouco arrastada em diversos momentos, e olha que o problema nem são as quase 3 horas de duração. Além disso, falta emoção no enredo de alguns personagens (em especial Odisseu), o que acaba não gerando empatia com o público, tornando a viagem mais automática e sem emoção.


Muitas vezes, Christopher Nolan é conhecido pela sua frieza em desenvolver alguns personagens, e isso acontece em A Odisseia. O Odisseu de Matt Damon não é o típico herói de ação, e sim um personagem com sentimento de culpa pelas suas atitudes na guerra de Tróia, o que o torna um personagem frio e apático. Damon está impecável no papel – e provavelmente terá uma merecida indicação na temporada de premiação -, conseguindo transmitir apenas com olhares e o silêncio toda a dor, o sofrimento, e o sentimento de culpa de ser um herói de guerra, mas falta um carisma, uma emoção em Odisseu que está presente na obra de Homero; e claro, isso é justificado pelo seu passado e na forma como Nolan construiu o personagem. Essa mudança afeta, por exemplo, quando o personagem reencontra sua esposa. No entanto, e falando dela, Anne Hathaway é o ponto mais emotivo, o coração da produção. Sua Penélope não é a esposa passiva, ela assume o papel de uma líder política que enfrenta os pretendentes, mesmo que ainda tenha esperanças de que seu marido volte, e a atriz captura a garra e a determinação de sua personagem perfeitamente, intercalando cenas mais emocionais com as mais racionais.



Ao seu lado, Tom Holland se destaca como Telêmaco, filho de Penélope e de Odisseu – e que ainda não se conhecem -, e apesar de não estar tão bem quanto seus outros colegas, ele consegue transmitir a vulnerabilidade de um jovem assombrado pela ausência de uma pai lendário, um rei que colocava tudo em ordem. O personagem é o único que tem certeza de que Odisseu está vivo, mas também acredita que precisa se tornar homem, um líder, antes do tempo para proteger sua mãe, o legado do pai, e a cidade de Ítaca. Junto com Holland, Robert Pattinson rouba a cena como o cínico e ardiloso Antinous. O ator consegue criar uma antipatia com o público apenas com seu olhar repugnante, construindo um vilão manipulador e magnético, uma das melhores atuações da carreira. Lupyta Nyong’o e Elliot Page, alvo das maiores polêmicas envolvendo o filme, são os maiores destaques dos coadjuvantes, e isso que aparecem somente durante cinco minutos cada o filme todo. Nyong’o faz um trabalho incrível como as irmãs gêmeas Helena de Tróia, e Clitemnestra, a esposa de Agamenon. Page – que juravam que ia ser o novo Aquiles e fizeram o maior “fuzuê” -, interpreta Sinon, um jovem guerreiro enganado por Odisseu, e que reaparece na sequência do “inferno”, no submundo, confrontando-o; a interpretação aqui é épica e assustadora. Zendaya também está genial como Athena, que também aparece em pouquíssimas cenas, e mesmo com poucas falas, se torna uma personagem marcante e que faz parte de uma reviravolta na trama.



Sem dúvidas, A Odisseia de Christopher Nolan é um monumento cinematográfico de alto nível, um épico irretocável na parte técnica, mas que carece de emoção e sentimentos; a jornada de Odisseu nunca foi somente sobre sobrevivência, mas também o amor desesperado pela sua família e pelo seu lar. Muito mais do que um filme sobre Deuses e criaturas mitológicas, e por mais que tenha diversos elementos fantásticos, “The Odissey” é uma jornada de reflexão sobre seus atos, traumas e culpa; é uma produção mais intimista e real. O ritmo é irregular, e em alguns momentos as quase três horas de duração se arrastam, mas nada que prejudica a experiência do público, que vivenciará um épico em grande escala, com sequencias de ação impecáveis, grandes personagens, momentos tensos e dignos de se assistir em uma tela de IMAX.






A ODISSEIA


Ano: 2026

Direção: Christopher Nolan

Distribuidora: Universal Pictures

Duração: 172 min

Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson,

Charlize Theron, Robert Pattinson, Samantha Morton, Elliot Page,

Lupita Nyong'o, e Zendaya.



★★★★ ½ 9,5
























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